O relógio marca 20h30. Você levanta do sofá, olha as garrafas no minibar e decide entre Jack Daniel’s, Jim Beam ou Johnnie Walker. Fica as encarando, sentindo o gosto da bebida na boca, mas isso não te anima.
Talvez Smirnoff, se sua esposa estiver junto pode querer uma caipirinha, mas tem o trabalho de espremer o limão, dosar e colocar açúcar. Você não quer ficar em pé preparando o drink.
Entre as opções, decide abrir a geladeira e pegar quatro ou cinco long necks de Heineken do seu engradado e pegar mais leve, ainda não é fim de semana e você precisa acordar às 6h30 da sexta-feira. Além disso, sua esposa também gosta de cerveja.
Abre uma sacola do Archer, coloca as garrafas dentro e, depois, mais uma sacola para reforçar. Pega as chaves do carro, sai de casa e parte rumo à rua do Centenário. No caminho vai pensando se achará vaga na rua ou vai ter que estacionar na avenida Otto Renaux, mas joga pro destino. Chegando lá, dá a sorte de ter vagas em frente à Santa Fé Tintas.
Quando sai do carro, já escuta a potência do saxofone e a força do baixo ensaiando a introdução de alguma música. O portão de ferro está aberto e você entra na garagem subterrânea.
Logo na primeira porta já acena para a banda e diz boa noite aos que estão sentados. Depois, vai até a cozinha e deixa as cervejas na geladeira, com exceção de duas que você e sua esposa vão tomar.
Vocês sentam na cadeira, colocam as cervejas em cima da mesa de mármore, cruzam as pernas e unem as mãos à voz de Ivo Lombardi cantando If you’re going to San Francisco be sure to wear some flowers in your hair.
Pouco tempo depois, mais pessoas começam a chegar, a banda bebe mais vinho, mais cubas e mais uísques, e a noite começa a ferver. Tocam clássicos como Come Together, dos Beatles, A Whiter Shade of Pale, do Procol Harum, Never Tears Us Apart, do INXS, e I Just Called To Say I Love You, de Stevie Wonder.
Você esquece do trabalho, reencontra amigos que não via há algumas semanas e se sente agraciado por ter um lugar como esse em Brusque.
O jornalista Otávio Timm recebeu o convite para ir aos Robinsons pela primeira vez pela ex-colega de trabalho Beatriz Coan, que atuou com ele no jornal O Município durante alguns anos.
De início não compreendeu a dinâmica do ensaio e imaginou que a banda fosse composta por jovens e que tocava em uma garagem grande à beira da rua.
A primeira surpresa que teve quando chegou na casa foi propriamente o ambiente: um portão pequeno, seguido por uma descida e uma garagem subterrânea com mesas, cadeiras e uma mesa de sinuca.
Depois, se surpreendeu com a quantidade de pessoas que estavam ali, em sua maioria jovens, não condizente com a idade dos membros da banda. O fato de poder levar sua bebida sem ter que pagar para entrar e consumir foi determinante para que ele se sentisse motivado a ir.
Organização, respeito e música boa. Três pontos que fazem o jovem de 25 anos escolher os lugares que frequenta e, com certeza, Os Robinsons possuem isso. “Era um clima de harmonia. A pessoa usava o espaço de uma maneira tranquila, da maneira correta”, diz.
Por conta do primeiro impacto ter sido positivo, assistir os ensaios às quintas-feiras à noite passou a fazer parte da agenda de Otávio. Muitas vezes por causa do trabalho ou de outros compromissos não pode comparecer toda semana, mas uma vez por mês buscava ir com os amigos.
“Toda vez que eu volto aos Robinsons lembro que a gente estava lá para se despedir de uma colega. Ela não imaginava que deixaria de herança Os Robinsons para a gente”, afirma.
O jornalista Vitor Souza também foi convidado para o ensaio por Beatriz. Alguns dias antes, ele havia ido até a Sociedade Esportiva Laranjeiras e a ex-colega já havia comentado sobre a banda que fica no final da rua do estabelecimento. Apesar de não ouvir bandas de rock como Pink Floyd e Beatles, decidiu ir pela parceria.
Na noite do ensaio, eu e ele havíamos voltado da Univali e descido do ônibus logo depois da ponte dos Bombeiros. Fomos andando até a casa e, quando chegamos, ele se entusiasmou com o ambiente.
“Era um lugar bacana, com música agradável. Era um ambiente aconchegante que dava pra ficar, conversar e ouvir o pessoal fazer um som legal. Eu não tinha muita expectativa, mas valeu a pena. Aquela foi a primeira e última vez que fui com a Bia [Beatriz Coan]”, relata.
Com quase três anos assistindo aos ensaios, Otávio avalia que o encontro não é prioritariamente para ser marcante e render uma boa história, mas sim para relaxar e jogar conversa fora.
“Estamos lá apenas para desestressar e consumir o mínimo de informação possível, já que a semana é bastante intensa. Só queremos música boa, bebida gelada e conversa sem muita profundidade”, diz.
Como Vitor não é fã de rock, a música para ele não é o ponto principal, ela fica apenas para preencher o ambiente. Gosta apenas de conversar e beber. Quando não tem assunto, presta atenção na música.
“Eu, Otávio e o Jones nos reunimos para conversar. Naquela época a gente estava no auge da nossa relação. Ninguém estava estressado por causa do trabalho, mesmo ele sendo o principal assunto, mas nós conversávamos sobre muitas coisas. A gente bebia e fofocava, então eu esperava que toda quinta-feira tivesse ensaio”, conta.
Quando a banda deu uma pausa nos ensaios em julho de 2024 por causa da morte de Amanda Maffezzolli, a filha do anfitrião e saxofonista Armando Maffezzolli, Otávio se solidarizou com o músico e pensou que não aconteceriam mais encontros.
“Mesmo não sendo próximo do Armando, eu senti o choque do que aconteceu. Ninguém espera que um pai vai enterrar um filho. É o contrário do que se espera da vida humana. Ninguém iria culpá-lo por fechar a casa e não tocar mais. Com o passar do tempo, tivemos a feliz notícia de que Os Robinsons estavam de volta e a oportunidade de acompanhá-los novamente”, finaliza Otávio.
Os Robinsons durante ensaio. Foto: Vitor Souza
A noite mais marcante para Vitor foi quando Armando pediu para todos que estavam na calçada, depois do ensaio, fazerem silêncio. O motivo, até então desconhecido para nós, era que a filha dele estava doente e sob os cuidados dos pais. Em sua memória, esse episódio marcou o fim da banda.
“Algumas semanas depois a gente descobriu pelo Instagram que ela tinha falecido. A gente pensou: puta, mano, imagina como ele deve estar. É um senhorzinho bem fofinho, bonitinho, bigodudinho. Ficamos com pena”, diz.
Depois disso, Vitor e eu sempre nos perguntávamos se teria rock naquela semana. Era nosso código para ir ao ensaio. “Toda quinta a gente fala: hoje é dia de rock. Isso é uma coisa que fez bastante falta”.
Logo que a banda voltou, quase um ano depois da morte de Amanda, eu perguntei se eles gostariam de dar os depoimentos sobre a história da banda e eles aceitaram. Com o avanço das entrevistas, eu fui me enturmando e informando os rapazes que Os Robinsons estavam voltando à ativa.
“Não cheguei a pensar que eles nunca mais iriam voltar e que a banda ia acabar. Mas fez bastante falta. Naquela época, era o ambiente que a gente mais frequentava. Alguns dos velhinhos que sempre iam nos davam boa noite e se lembravam da gente. Até teve um dia que o seu Armando expulsou o Jones da garagem porque ele estava fumando lá dentro. Esse foi outro momento arcante”.
O músico Igor Cultz frequenta os ensaios desde 2014. Ele conheceu Os Robinsons por meio da filha de Ivo Lombardi que, na época, era companheira de banda com ele. Depois que Os Robinsons paravam de tocar, Igor costumava ir até lá com sua banda para ensaiar.
“A primeira vez todo mundo fica encantado, música boa e energia lá em cima, sem falar que todo mundo é muito querido e receptivo, nos tornamos bons amigos desde então”, diz.
Sempre que pode, Igor vai até o ensaio e toca Sweet Caroline com Os Robinsons. Ele começou a ensaiar a música com eles há cerca de oito anos. “Seja lá no ensaio ou em qualquer lugar por aí, se eu estou presente eles me chamam pra cantar essa”, conta.
Para ele, cada ensaio é uma nova e boa história. Porém, há um dia específico que está marcado em sua memória.
Era um dia de muita chuva em 2016 quando a banda marcou o ensaio e, por conta do tempo, não apareceu ninguém. Igor apenas sentou com a banda na mesa, bebeu e tocou violão com eles.
“Uma quinta-feira sem Robinsons é uma quinta esquisita. Já virou tradição, e sorte dos que podem acompanhar e ter o prazer de assisti-los até os dias de hoje”, finaliza.
Jheverton Erat conhece Os Robinsons desde 2013, quando era funcionário de Ivo Lombardi. Ele chegou a conhecer inclusive Ingo Lauritz, o baterista da banda que faleceu em 2017. De Ingo, ele guarda boas lembranças.
“Era uma pessoa incrível, muito gente boa. Fazia o cubinha dele e sentava na bateria. A gente costumava conversar, depois ela ia lá fora fumar o cigarrinho dele”, conta.
Outra pessoa que ele conheceu foi Nathan Krieger, guitarrista dos Robinsons antes de Victor Michelato assumir o posto. Para Jheverton, é mágico estar naquele ambiente. “Ver uma amizade de tanto tempo me deixa feliz. A música é a vida deles”, diz.
Depois de um tempo, Ivo o chamou para cantar. Desde então, sempre que aparece na garagem acaba cantando uma ou duas músicas com a banda. “Eu era um garoto em 2014 e cantei com eles no Rock Bar. Esse foi um dos melhores momentos que tive com eles”.
Quando a filha de Armando faleceu, ele chegou a pensar que nunca mais os veria tocar novamente. Aos poucos, Jheverton e outros amigos foram pedindo para a banda voltar a se reunir. Ele torce para que a banda nunca termine.
“Não imagino de forma alguma como é para alguém perder uma pessoa tão próxima. Mas graças a Deus eles continuam fazendo o som. Sempre que posso estou lá”.
“Eu sento em uma das cadeiras com a minha cerveja na mão, fecho os olhos e só escuto a música deles. Me dá uma paz, uma sensação única mesmo, como se cada problema que tu tem na tua vida não fosse nada. Como se só a música existisse”, finaliza.