O homem analógico

O homem analógico

Victor Michelato

Victor Michelato

Para ler ao som de
Breakfast In America, de Supertramp,
e Any Colour You Like, de Pink Floyd

E

stava em Brusque há um ano e, durante os primeiros meses com seus 18 anos, em 2014, descobriu uma nova cidade e novas oportunidades. Não que quisesse vir para a cidade catarinense, mas como os negócios em geral não estavam dando certo em Cianorte (PR) – pouca procura, preços muito altos, um menino e uma menina para sustentar -, o pai de Victor Michelato resolveu migrar para Brusque com a família em busca de um recomeço. Consequentemente, o filho, que já trabalhava com ele desde os 8 anos, teve que vir junto para montar um novo estúdio fotográfico.

Alugaram uma casa e começaram seus serviços. Eram casamentos, projetos publicitários, eventos, colações e todo o tipo de trabalho audiovisual. Eles começaram a criar credibilidade com os clientes e o recomeço que precisavam estava se criando.

O mercado do audiovisual é desafiador e exige técnica, conhecimento e, sobretudo, contatos, ponto que, se não fosse pela música, talvez Victor não conseguisse tão fácil. Fanático pelos metais e saxefone do Supertramp, banda que a mãe ouvia, e pela psicodelia e progressividade do Pink Floyd desde criança, a música sempre esteve entrelaçada em sua vida, como uma espiral que, em determinados momentos, o puxou para seguir tal caminho.

Esse laço fez com que, em julho de 2015, um dos primeiros amigos que Victor fez em Brusque o convidasse para ir ver o ensaio de uma banda de rock em uma garagem.

David Loos buscou o recém morador em casa de carro e, provavelmente ao som de algum cantor sertanejo como Luan Santana ou até mesmo o estilo pop de Bruno Mars, foram até a casa de Armando Maffezzoli, no bairro São Luiz, encarregados de algumas cervejas.

Victor e seu pai atrás da moto que customizaram juntos. Foto: Arquivo Pessoal

Victor e seu pai atrás da moto que customizaram juntos. Foto: Arquivo Pessoal

Victor conheceu David quando levou sua guitarra Gibson falsificada em um luthier no bairro São Luiz. Na época, em 2014, Victor morava próximo da Zen Bier e do pub DeepFour Black, na rua Benjamin Constant, e a loja era perto de sua casa. Ele foi até lá comprar captadores
Os captadores são componentes responsáveis por converter as vibrações das cordas em sinais elétricos, que depois são enviados ao amplificador.
para a guitarra e disse ao vendedor, todo empolgado, que havia comprado a Gibson verdadeira.

O luthier
Um luthier é o profissional especializado na construção, reparo e manutenção de instrumentos musicais, especialmente os de corda.
olhou na cara de Victor e desconfiou que ela fosse legítima. Nesse momento, após os testes, ele descobriu que a guitarra não era verdadeira. Porém, nessa loja, havia um cartão de David, que fabricava amplificadores
Os amplificadores são equipamentos que aumentam o sinal elétrico gerado pelos captadores da guitarra, tornando-o audível e permitindo controlar volume, timbre e efeitos sonoros.
. Ele ficou curioso, pois estava montando do zero um amplificador para sua guitarra. Eram fios coloridos, válvulas, resistores e altos-falantes.Todos os componentes estavam enchendo a cabeça do jovem como um emaranhado impossível de ser resolvido.

Ele estava tendo problemas na parte elétrica e não estava conseguindo resolver. Até que Victor, seu pai e um amigo dos dois que também era de Cianorte foram até David, no bairro Santa Rita. Victor levou a sua guitarra e, ao chegar lá, se deparou com um pedal Tone Bender
O Tone Bender é um pedal de efeito criado nos anos 1960 que produz o som de fuzz, um tipo de distorção intensa e encorpada que tornou-se marcante no rock e no blues, usado por guitarristas como Jimmy Page e Jeff Beck.
feito por David.

O jovem ficou super entusiasmado e, durante a conversa, David falou que gostaria de fazer um amplificador valvulado
Um amplificador valvulado é um tipo de amplificador que utiliza válvulas eletrônicas (ou tubos) para aumentar o sinal da guitarra.
e um Marshall JCM 800
O Marshall JCM 800 é um amplificador valvulado lançado nos anos 1980 pela marca britânica Marshall. Tornou-se um ícone do rock’n’roll e do heavy metal.
para um projeto da faculdade. Nisso, Victor o indagou.

“Não, cara. É uma merda de amplificador. Faz um Marshall Plexi
O Marshall Plexi é um amplificador valvulado clássico dos anos 1960, conhecido por seu som quente, encorpado e com distorção natural quando tocado em alto volume. Foi amplamente usado por guitarristas como Jimi Hendrix e Eric Clapton.
” – o Plexi é o tipo de amplificador que Victor gosta e, por isso, sugeriu a David.

Para realização de Victor, o amigo fez o amplificador e Victor pode tocá-lo. Com o equipamento, se sentiu realizado.

“Não era um amplificador de 100 watts, era de 18. E ainda estava reduzida a potência
Potência, em um amplificador, indica a força com que ele projeta o som, medida em watts (W). Um modelo de 100 watts é muito mais alto e potente, enquanto um de 18 watts, tem menos volume, mas costuma oferecer maior saturação das válvulas e um som mais quente e característico quando tocado em volumes altos.
, então dava uns 12. E eu, nossa, agora sim tô tocando num amplificador de verdade”.

Equipamento de Victor no chão do estúdio. Foto: João Henrique Krieger

Primeiro impacto

Ele entrou e viu aquela banda tocando diversos clássicos dos anos 60 e 70 e ficou fascinado. Ainda nessa época, quem tocava bateria era Ingo Lauritzen, que, após certo horário, entregava as baquetas nas mãos de Lucas, um jovem na casa dos 20 e poucos anos que saía da faculdade e ia direto para a garagem tocar. Essa mudança de baterista fazia com que as primeiras músicas do ensaio tivessem uma energia diferente, já que todos os membros originais da banda tocavam juntos.

I Just Called to Say I Love You, um dos grandes hits do Stevie Wonder, acertou em cheio o coração de Victor e o fez esquecer totalmente da versão original da música. Ele só queria ouvir a versão dos Robinsons. Envolto pelo êxtase do som, começou a conversar com as outras pessoas que estavam na garagem, até que falou com a filha de Ivo Lombardi e Nathan Krieger, que também tocava na banda na época.

Entre papos que deveriam variar entre grandes bandas do rock, qual acorde os Beatles tocavam no começo de A Hard Day’s Night, e até sobre bandas que marcaram presença na cidade, Victor falou que também tocava. Para sua surpresa, o que era para ser um mero papo casual se tornou um convite para tocar na banda.

Ivo, Lauro, Victor e Cláudio durante ensaio. Foto: João Henrique Krieger

Ivo, Lauro, Victor e Cláudio durante ensaio. Foto: João Henrique Krieger

Logo depois que Os Robinsons guardaram seus instrumentos, o jovem foi apresentado a eles. Embriagado pelo som, Victor conversou com os membros da banda e foi chamado para tocar alguma música logo naquele momento. Lucas sentou no banco da bateria e começou a fazer as primeiras batidas de Rock and Roll, do Led Zeppelin.

Na sequência, Victor tocou o riff
Um riff é uma sequência curta e marcante de notas ou acordes tocada repetidamente em uma música.
e David começou a cantar bravamente: It’s been a long time since I rock and rolled. It’s been a long time since I did the stroll.

"

Se não fosse a música, sabe-se lá quando eu ia conseguir ter feito um amigo, ter conhecido uma galera e ter feito as paradas. A música é pra mim uma piração. Eu acordo escutando música, eu como escutando música e eu tomo banho escutando música”

“Se não fosse a música, sabe-se lá quando eu ia conseguir ter feito um amigo, ter conhecido uma galera e ter feito as paradas. A música é pra mim uma piração. Eu acordo escutando música, eu como escutando música e eu tomo banho escutando música”

O estúdio de Victor

Eram 19h de uma sexta-feira de agosto quando eu cheguei no estúdio de Victor, no bairro Santa Rita, próximo à ponte do Trabalhador. Quando cheguei perto da porta de vidro escuro, vi Victor sentado em um banquinho bem baixo tocando guitarra com um notebook na sua frente. Enquanto estava procurando uma campainha, ele logo me viu, se levantou e veio abrir a porta.

Nos cumprimentamos e ele me apresentou o estúdio. Câmeras, tocha de estúdio, rebatedores de luz, figurinos e, para minha surpresa, duas motocicletas Harley-Davidson. Ele disse que estava gravando guitarra para um projeto de um amigo. Logo puxou uma cadeira para mim e ficou sentado no banco. Cruzei as pernas, liguei o gravador do celular e começamos a conversar.

Ele me contou como foi a experiência da primeira vez que viu Os Robinsons tocando, a alegria que sentiu ao tocar na garagem naquela noite e como foi inesperado o convite para tocar na banda.

Atualmente, Victor cuida, com auxílio de outras pessoas, do perfil do Instagram dos Robinsons. Normalmente, ainda pela manhã, um stories é postado informando que naquela quinta-feira haverá ensaio. Na maioria das vezes é uma foto da banda com alguma música do repertório.

Victor tocando guitarra com o estúdio ao fundo. Foto: João Henrique Krieger

Mais para o final de 2015, nasceu a filha de Nathan e, por causa das novas prioridades na vida do pai, o músico passou a não ir aos ensaios, o que permitiu que Victor assumisse o posto de guitarrista da banda. Além dele, o músico de Brusque Igor Cultz e David também dividiram a guitarra, uma Epifone Cassino de Ivo.

“Nossa, que guitarra maravilhosa. Uma pena que não comprei quando ele vendeu. Também ficava o amplificador do Armando, que estava sempre disponível”, conta Victor.

À medida que mais ensaios aconteciam, Victor sentiu a necessidade de chegar preparado para tocar as músicas. Por mais que conhecesse o repertório dos Robinsons, formado em grande parte por Beatles, ele queria ensaiar antes as músicas para tocar sem problemas.

Em determinado dia, quando encerrou o trabalho no estúdio mais cedo do que o habitual, pegou o instrumento e tirou Sultans of Swing, hit de 1978 do disco homônimo do Dire Straits. Até que chegou o próximo ensaio e ele estava com aquele riff em ré menor na cabeça. FIcou no bar preparando um cuba para alguém quando a banda começou a tocar a canção. Imediatamente, deixou o drink na bancada, pegou a guitarra e tocou a música. De acordo com ele, essa foi a única vez que conseguiu tocar a música inteira, já que esqueceu como tocá-la ao longo do tempo.

Logo que Victor entrou na banda, o repertório era bem maior do que é atualmente. Nos dias de hoje, a banda começa por volta das 20h30 e, chegando perto da meia-noite, já encerra o som, deixando os equipamentos à vontade para quem estiver lá. Há dez anos, Victor conta que a banda parava de tocar depois da 1h.

“Nosso repertório é muito extenso. Se a gente fosse tocar na íntegra, daria umas seis horas de música no ritmo dos Robinsons”, diz.

Andirá (PR) vista de cima em 2018. Foto: Prefeitura de Andirá/Divulgação

Andirá (PR) vista de cima em 2018. Foto: Prefeitura de Andirá/Divulgação

Origens

Victor nasceu em Andirá (PR) em 1995. Em 2007, 11 anos depois, nasceu sua irmã. Dentro de casa, a principal referência dele de rock’n’roll era o Led Zeppelin, banda da qual extraiu vários riffs de guitarra e frases de bateria mais pesadas, e o Supertramp, do qual sempre gostou da sonoridade rica dos metais com diversos outros instrumentos.

Outra banda que também mexia com Victor era o Queen, principalmente a música I Want It All, do The Miracle, lançada em maio de 1989. Em sua definição, essa música o incendeia e o enche de alto-astral.

Essas e outras bandas ele ouvia em fitas cassetes ou mesmo em discos de vinil. Victor só foi assistir a uma banda ao vivo pela televisão em 2002: o show do Red Hot Chili Peppers no dia 12 de outubro de 2002 no estádio do Pacaembu, com cerca de 50 mil pessoas presentes no local, e mais milhares que acompanharam a transmissão pela Band.

O que mais impressionou Victor foi o modo como o baixista Flea tocava. Foi nesse show que o jovem soube da existência do instrumento e descobriu como uma música era construída.

Outra canção que também fez a cabeça de Victor foi Free As a Bird, lançada no Anthology 1 dos Beatles. O álbum, inclusive, foi lançado no ano em que Victor nasceu. Essa era uma música de família, a mãe e o pai dele também gostavam e todos ouviam juntos.

Victor tocando o baixo que comprou quando era criança. Foto: João Henrique Krieger

Depois do episódio do Red Hot Chili Peppers, quando estava quase completando 8 anos, ele comprou seu primeiro baixo. Neste momento da entrevista, ele se vira do banquinho que está sentado e aponta para o instrumento, que está pendurado na parede de seu estúdio.

Durante os minutos seguintes da conversa, um sorriso encheu seu rosto e ele foi se virando várias vezes para o instrumento, o contemplando com uma enorme admiração. Era como se ele estivesse assistindo a um filme do seu tempo de criança e adolescente.

Porém, antes de ter o baixo, o pai de Victor havia comprado um saxofone tenor
O saxofone tenor é um dos tipos do instrumento, conhecido por seu som encorpado, aveludado e versátil, que fica entre o sax alto e o sax barítono em termos de tonalidade. Ele é usado em estilos como jazz, blues, rock e música popular.
, idêntico ao que Armando toca nos Robinsons
Esses e outros momentos na história do jovem são coincidências curiosas que se concretizaram depois de anos.
. Porém, por não ter tamanho para segurar o instrumento, acabou desistindo de tocar.

Victor foi um dos poucos membros da família que se ligaram à música e foram aprender a tocar algum instrumento. De vez em quando, em reuniões de família, algum primo ou tio distante tocava alguma roda de viola e canções sertanejas.

Por não ter muitos músicos na família, ele não sentiu grande incentivo ao instrumento, mas em nenhum momento foi forçado a parar, até porque os pais dele gostavam de música.

Contato com instrumento

Victor acabou fazendo aula de violão para aprender as notas do instrumento, quase as mesmas do baixo e, pouco tempo depois, aprendeu propriamente o instrumento de quatro cordas com um homem que trabalhou com o pai dele.

O professor tinha uma Craviola Giannini de 12 cordas
O instrumento já foi usado pelo Jimmy Page em gravações do Led Zeppelin como Stairway to Heaven. Brian May segurava uma craviola quando o Queen tocou Love of My Life em Montreal, em 1981.
. O instrumento foi planejado por Paulinho Nogueira e normalmente é utilizado para acompanhamento harmônico, linhas melódicas e arranjos instrumentais.

Durante as aulas, o professor tocava uma base com a Craviola e começava a solar com o instrumento. Olhando para trás, Victor percebe que essas aulas foram as suas primeiras jams e, a partir desse ponto, começou a ter uma percepção diferente da música.

Essa é uma prática que ele mantém até hoje. O jovem diz que não conhece nomes de escalas e, quando toca algum solo, não reconhece o que está tocando.

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Nessa piração eu comecei a ficar muito bom e a tirar as músicas de ouvido. Naquela época eu não tinha internet, não conseguia entrar no Youtube, então colocava o CD no laserdisc e ficava tocando. Cheguei a tocar oito horas por dia durante vários dias para aprender as músicas”

“Nessa piração eu comecei a ficar muito bom e a tirar as músicas de ouvido. Naquela época eu não tinha internet, não conseguia entrar no Youtube, então colocava o CD no laserdisc e ficava tocando. Cheguei a tocar oito horas por dia durante vários dias para aprender as músicas”

Durante a adolescência, Victor começou a frequentar a igreja e a aprender as músicas que a banda tocava. Junto com ele havia Eduardo, um amigo que também tocava violão e se reunia com Victor para tocar. Os professores de violão também passavam algumas músicas da igreja, por terem acordes mais fáceis.

O jovem estava vivendo na primeira década do século, momento em que o mundo sentiu a popularização dos video games, principalmente do Playstation.

Nessa época, grande parte dos adolescentes seguiam o caminho dos jogos. Por causa disso, Victor não tinha tantos amigos que também gostavam de música e sabiam tocar um instrumento. A primeira vez que Victor viu um pedal de guitarra foi na banda de um primo dele, que havia comprado o equipamento de outro estado.

“Ele tinha uma guitarra e eu pensei: ah, é isso que distorce o som da guitarra e faz o rock’n’roll. Uma vez eu cheguei a trocar o Nintendo 64 em uma guitarra com meu primo. Era uma guitarra muito feia e eu tocava só a nota mais grave e colocava o som no máximo. Blom blom blom blom”, diz.

Som de controle
Separador X
Som de violão

Rock e religião

A primeira banda em que ele tocou foi em uma igreja quando tinha 13 anos. Ele tentou fazer um teste em uma igreja, mas o pastor não aprovou o jeito que Victor tocava. O pároco achava que o adolescente tocava muito fora dos padrões.

Um tempo depois, ele foi aprovado para entrar. Já dentro da banda, ele conheceu outros estilos, como o reggae. Às vezes aparecia uma guitarra distorcida, mas nada de mais. Nessa época da igreja, ele sentia falta do rock’n’roll. Tinha muita vontade de deixar o cabelo crescer, mas, por ser uma cidade pequena, ainda havia certos preconceitos.

Quando ele fez 14 anos, toda a família se mudou para Cianorte (PR). Na outra cidade, ele encontrou diversos outros músicos. Antes da viagem, uma coincidência do destino fez com que Victor descobrisse outra forma de tocar.

Programa AmpliTube 5, usado para simular amplificadores de guitarra. Foto: AmpliTube 5/Reprodução

Um noivo que havia contratado o serviço da família para fotografar o casamento estava vendendo uma guitarra da Behringer, uma empresa alemã de equipamentos musicais. O ponto que interessava Victor é que na guitarra tinha uma placa de som, que o permitia ligá-la no computador e simular diversos efeitos.

Por ter muitos computadores por conta dos trabalhos audiovisuais, ele conseguia simular os efeitos no computador.

Pedaleira
Uma pedaleira é um equipamento que reúne vários efeitos de som usados por guitarristas ou baixistas, como distorção, delay, reverb e chorus, em um único dispositivo. Ela permite controlar e combinar esses efeitos com os pés, facilitando trocas rápidas durante as músicas e oferecendo grande variedade de timbres em um só aparelho.
e amplificador sempre foram muito caros e eu não conseguia comprar. Eu até fritei um sistema de som de tanto que eu toquei o baixo nele. Não deu certo e ele estragou. Eu usava um fone de ouvido, enrolava onde coloca a correia do baixo, colocava no ouvido e tentava escutar”, lembra.

Neste momento da entrevista, ele me mostra um amplificador Staner
O amplificador Staner é um equipamento produzido pela marca brasileira Staner, conhecida por fabricar amplificadores para instrumentos musicais e som profissional.
que comprou nessa época da adolescência, uma caixa retangular e pesada no meio de um tapete na sala do estúdio.

Durante um ensaio, por tocar muito forte, descolou o suporte do alto falante. Ele brincou dizendo que o amigo David Loos recebeu um amplificador idêntico com problema e disse: “agora eu sei que o mundo está acabando, porque se um Staner deu problema, já era”.

Tocar na igreja para mim foi um aprendizado muito grande. Muita dinâmica que eu tenho hoje e tocando na banda, percebendo os momentos mais baixos e altos, eu aprendi na igreja tocando desde os 14 anos. Na igreja, você precisa entender que é um momento de máximo respeito. Claro que no rock’n’roll às vezes te leva para um lado agressivo de abuso de drogas e tudo mais, às vezes você ter uma noção de respeito é importante. É bom entender o seu limite”.

Monumento da entrada de Cianorte (PR). Foto: Prefeitura de Cianorte/Divulgação

Monumento da entrada de Cianorte (PR). Foto: Prefeitura de Cianorte/Divulgação

Em Cianorte, mesmo na igreja ele já tocava alguns sons mais rock’n’roll. Quem imagina que uma pessoa religiosa poderia ser envolver com rock pesado. Pois é, esse foi o caso de Victor, que chegou a participar de uma banda punk com os amigos da igreja. Ele conta que, nessa época, o front man dos Raimundos, Rodolfo, já havia saído da banda e formado o Rodox
A banda misturava rock, hardcore e letras com influências cristãs, refletindo a fase de transição espiritual de Rodolfo após deixar o Raimundos. O Rodox lançou dois álbuns de estúdio, Estreito, em 2002, e Rodox, em 2003.
, então certos sons puxados para o hardcore estavam no ouvido da galera.

Após os cultos dos sábados, ele se reunia com a banda, comprava algumas pizzas no supermercado e ficava tocando até as 4h do domingo. Depois do rock’n’roll, andava de skate, descansava e, de noite, tocava no culto novamente.

Mesmo tocando nas bandas fora e dentro da igreja, Victor nunca pensou em seguir a carreira de músico. Para ele, a música é ingrata, principalmente para pessoas que, como ele, a sentem de forma subjetiva.

“Eu não sou um arranjador ou alguém que toca de tudo. O Irineu
Músico que chegou a acompanhar Os Robinsons e tocou com grandes artistas da MPB.
, que chegou a tocar muito com o Lauro, e com grandes artistas como Belchior e Elis Regina, era um cara que tocava muito. Como eu não toco nesse nível, nunca senti que poderia tocar para valer. Nunca me senti confortável a ponto de viver isso. Eu toco na Torvelim (banda brusquense de indie rock na qual Victor entrou na metade de 2025), mas ainda não tive a oportunidade de gravar com eles. Eu adoro tocar, mas preciso de uma banda pra tocar junto”.

Victor tocando baixo no estúdio. Foto: João Henrique Krieger

Na entrevista, ele também cita as motos que customizou junto com o pai dele, que, sem a ajuda do pai, não teria feito o trabalho. Além disso, Victor também ganhou prêmios no Chile e na Itália, junto com a equipe que produziu trabalhos audiovisuais.

Neste momento da entrevista, Victor puxa para perto o banco onde estava seu notebook e mostra alguns sons de guitarra que havia gravado. São reverbs, delays e distorções em diversos arquivos de áudio do tempo que tinha 18 anos. Aquele computador é o depósito e laboratório de Victor.

Ele contou como fez os efeitos nas guitarras com pedais analógicos e como fazia para o som sair limpo na mesa de som. Ele colocou para tocar até algumas gravações do tempo da igreja.

Além de todo o estoque de sons, ele também mostrou um vídeo que gravou com uma banda do Sesi em Cianorte para concorrer a um festival com diversas premiações. O clipe é bem caseiro e foi gravado pelo pai dele. Mostra a banda tocando em um estúdio com algumas cenas interpretadas.

Vinda para Brusque

Quando os negócios começaram a decair em Cianorte, a família soube que Brusque existia por conta de um vínculo no setor têxtil. O motivo da mudança para Cianorte era para desacelerar o ritmo da vida da família, que chegava a trabalhar quase 24 horas por dia. Na nova cidade, a família foi contratada para produzir o programa de TV de uma grande igreja.

Com o novo serviço, Victor e a família estavam gostando do serviço. Porém, para a decepção de todos, a igreja faliu, pois o pastor foi flagrado fazendo ‘atos contra a religião’. Ao mesmo tempo, a economia da cidade não ia bem. Até que um casal de amigos da família se mudou para Brusque e, alguns meses depois, outro também veio para Santa Catarina.

De início vieram apenas a mãe e a irmã de Victor, antes das férias de julho. A mãe conseguiu uma escola para a menina, alguém para ser fiador de um aluguel e um emprego. Um mês depois, quando Victor e o pai finalizaram os serviços em Cianorte e conseguiram arrumar todas as malas, se mudaram para Brusque.

Não que o começo em Brusque fosse diferente do que é hoje em questões de negócios. Victor afirma que o mercado do audiovisual é muito desafiador e exige bastante do profissional.

Por zelar por equipamentos de qualidade e uma equipe reduzida acaba sendo difícil manter muitos serviços, mas a família sempre segue em busca do serviço bem executado.

Quando a igreja para a qual a família trabalhava faliu, Victor acabou sendo beneficiado em certo sentido. Ele não era registrado na instituição e, como parte do pagamento, o pai dele pegou os instrumentos e equipamentos musicais da igreja.

Parte dos equipamentos ele trocou em instrumentos, como um amplificador pela guitarra da Gibson que ele achava ser verdadeira, mas, na verdade, não era.

Ele trocou o equipamento pela guitarra de um amigo, que também havia sido enganado. A história era de que o dono do instrumento havia trocado os captadores originais para usá-los em outro projeto. Por causa dessa guitarra, Victor conheceu David.

Victor e sua câmera. Foto: Arquivo Pessoal

Pausa nos ensaios

Em 2024, a banda passou por um momento conturbado: a morte da filha de Armando, aos 43 anos. Ela estava fazendo quimioterapia e morando na casa dos pais. Quando ela morreu, Victor conta que ficou surpreso, pois o saxofonista não havia comentado sobre a doença.

“Algumas semanas antes, a gente soube que ela estava doente; ele não tinha aberto o jogo pra gente. Já estava triste quando o esposo dela faleceu, que sempre comemorava o aniversário nos Robinsons e fazia uma festa enorme”, conta.

Em um dos últimos ensaios antes da morte, a banda estava muito esperançosa em relação à recuperação de Amanda. Mesmo vivendo um momento difícil, a música elevava o astral de todos os integrantes.

“O gaúcho (Cláudio Muller) havia sofrido com as enchentes do Rio Grande do Sul, tivemos a pandemia, mas mesmo assim estávamos bem porque tínhamos a música. Quando a filha dele morreu, pensamos que a banda tinha acabado”, afirma.

Ele diz que não via um modo de continuar tocando as músicas lentas com Armando de luto. Após um tempo, o anfitrião começou a se abrir com os amigos e retomou os ensaios.

“Não tinha como a gente tocar ‘Don’t Let Me Down’, dos Beatles, ou ‘Run to Me’, do Bee Gees. Mas ele falou pra gente: independente de a música ser triste ou não, eu vou sentir a perda do mesmo jeito, então vamos tocar.”

Após esse episódio, a banda foi voltando aos poucos e voltou a divulgar quando haveria ensaio.