A memória viva

A memória viva

Ivo Lombardi

Ivo Lombardi

Para ler ao som de
When a Man Loves a Woman, de Percy Sledge
e Reflections of My Life, de The Marmalade

Era o fim da década de 1960 e Ivo Lombardi terminava o curso técnico do setor têxtil no Rio de Janeiro. Ele estava com as malas prontas para voltar para Santa Catarina, mas  não esperava que a música participasse desse novo capítulo da sua vida.

Ele chegou na cidade maravilhosa por volta de 1966 e, enquanto estudava, morou em malocas, as famosas repúblicas para estudantes. Inclusive, foi em um desses locais que conheceu Armando Maffezzoli, que também era estudante na área, porém, morava em outra casa.

Até chegar no Rio, Ivo nunca havia tido contato com um instrumento musical, mesmo com um primo que tocava em uma banda de rock no começo dos anos 1960 e com o rádio sempre ligado dentro de casa. Porém, o desejo de aprender e a vontade de cantar sempre estiveram presentes.

Avenida Presidente Vargas nos anos 1960. Foto: Rio das Antigas/Acervo

Foi então no Rio de Janeiro que ele comprou seu primeiro violão. Naquela época, havia duas maneiras de se aprender um instrumento sem ter aulas. A primeira delas era com revistas com músicas cifradas.

A pessoa comprava a revista em uma banca, ia para casa, pegava o violão e tocava a música olhando para os acordes desenhados no papel. Nesse período a Jovem Guarda, que já havia ganhado o coração de milhões de brasileiros, também fazia parte do dia a dia de Ivo.

Com o violão em mãos e a voz afinada, ele sempre cantava Roberto Carlos, The Fevers e Renato e Seus Blue Caps. Além dos artistas brasileiros, houve outro quarteto que também moldou o caráter de Ivo e de seus amigos cariocas: Os Beatles.

Revista com cifras dos Beatles. Foto: Arquivo Pessoal

Conhecendo o rock

Fora da sala de aula e, enquanto não estava estudando, Ivo ouvia duas emissoras cariocas no seu rádio portátil da Mitsubishi, a Tamoio e a Mundial. Na década de 60, o rádio fazia parte do cotidiano brasileiro, principalmente nas transmissões esportivas. Existiam ainda os torcedores que iam ao estádio com o aparelho no bolso e o seguravam ao lado do ouvido enquanto assistiam ao jogo. Na época, a audiência também era disputada pelas Rádio Tupi e Globo, mas quem gostava de música sempre acaba buscando as duas opções. 

Os românticos acabavam sintonizado na Tamoio quando queriam ouvir Detalhes, do Roberto Carlos, ou até Unchained Melody, dos Righteous Brothers. Já para os jovens de espírito rockeiro, a Mundial oferecia um setlist totalmente frenético indo de Led Zeppelin, passando por Jimi Hendrix e, consequentemente, tocando muito Beatles. Nos momentos em que a alma de Ivo pulsava pelo rock’n’roll, ele girava o dial até 860 AM e ouvia uma voz vibrante gritando: “hello crazy people!”. Era o DJ Big Boy
A Rádio Mundial contava com o DJ Big Boy que, com um excelente bom gosto musical, trazia as principais novidades do rock para os jovens cariocas nos anos 60. Na emissora, mantinha dois programas diários, o Big Boy Show e o Ritmos de Boite, e um semanal especializado em Beatles. Em 7 de março de 1977, Big Boy faleceu em um quarto de hotel em São Paulo com 33 anos
 começando sua seleção, que poderia muito bem iniciar com a guitarra feroz de Eric Clapton em uma canção do Cream.

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Ele tinha uma potência e uma habilidade de envolver todo mundo. Naquele tempo, não era igual hoje, que a música é lançada, você entra na internet e escuta. Era difícil pra cacete. Mas ele [big boy] colocava na sequência. Não tinha como você não aprender aquilo e não gostar”

“Ele tinha uma potência e uma habilidade de envolver todo mundo. Naquele tempo, não era igual hoje, que a música é lançada, você entra na internet e escuta. Era difícil pra cacete. Mas ele [big boy] colocava na sequência. Não tinha como você não aprender aquilo e não gostar”

Rádio

Nessa época do rádio, Ivo conheceu bandas que ficaram até os dias de hoje no seu repertório. Bee Gees tocava sem parar com How Can You Mend a Broken Heart, além do disco Help!, dos Beatles, febre no país que motivou o nascimento da Jovem Guarda. O catarinense também ouvia de vez em quando Satisfaction, dos Rolling Stones, mas essa era uma pegada diferente.

Embalado pelos sucessos, ele resolveu comprar um toca-discos de um amigo de Blumenau que também estava no Rio e começou a colecionar seus LPS. A coleção dele chegou a mais de 300 vinis, todos vendidos por volta de 2024. Um xodó é Reflections of my Life, do Marmalade, canção guiada pelo violão de aço indo de sol maior, puxando a sétima, caindo de dó para lá menor.

Além da banda escocesa, Ivo também comprou muitos discos do cantor Neil Diamond, de onde aprendeu a tocar Sweet Caroline – música que Os Robinsons mantém em seu repertório até hoje.

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Era uma época muito rica. A gente escutava disco direto. Como não sabia tocar violão, ficava de butuca com meus amigos no botequinho na frente da escola vendo o povo tocar. Foi assim que aprendi as primeiras posições: Dó, Sol e Fá”

“Era uma época muito rica. A gente escutava disco direto. Como não sabia tocar violão, ficava de butuca com meus amigos no botequinho na frente da escola vendo o povo tocar. Foi assim que aprendi as primeiras posições: Dó, Sol e Fá”

Foto com áudio

Com os acordes básicos, Ivo aprendeu a tocar sua primeira música: Querida, do Jerry Adriani. Porém, até chegar no ponto dos acordes saírem perfeitos, todos os colegas da maloca ficaram de saco cheio de ouvir aquelas cordas trastejando e o som chegando com todo ruído. Quando eles ouviram as notas perfeitamente a voz de Ivo cantando “Querida quero lhe dizer que toda a minha vida entreguei a você” comemoraram imensamente.

Já em outra casa próxima a dele, havia um amigo de Minas Gerais que tinha um caderno com diversas músicas do Roberto Carlos cifradas. Foi com ele que Ivo aprendeu as músicas do rei e se animou cada vez mais. Outro amigo que também fazia parte da turma estava aprendendo violão clássico e tocava chorinho e outros ritmos mais cariocas.

Ele era craque em tocar Abismo de Rosas, de Dilermando Reis, uma canção que todos queriam aprender para tocar nas serenatas. Em comparação com o rock’n’roll mais recente, saber tocar essa música era o equivalente a tocar o solo de introdução de Sweet Child O’ Mine, do Guns N’ Roses. Sabiamente, Ivo ficou próximo desses colegas e, cerca de seis meses depois, já sabia tocar diversas músicas.

Sempre que tinha férias, Ivo voltava para Jaraguá do Sul, sua cidade natal, e contava as novidades do Rio. Os lugares que ia, os amigos que tinha feito, o conhecimento que estava aprendendo.

Desta vez, ele voltou com algo mais para mostrar aos irmãos. Trouxe o violão e cantou todas as músicas que aprendeu. Com isso, os jovens se empolgaram e começaram a fazer serenatas.

“Como eu tocava bem violão, logo juntava uma turminha para cantar. Meu Deus, isso era gostoso. E era moda”, diz.

Avenida Marechal Deodoro da Fonseca na década de 1960 | Foto: Reprodução

Antes de vir para Santa Catarina e empolgado com as músicas, procurou uma loja que vendesse as partes separadas de uma guitarra. Buscou o braço, o captador, a ponte, os trastes, a escala e o tensor. Achou tudo isso em uma loja de instrumentos na rua da Carioca, no Centro. Porém, não entendia como aquilo funcionava e teve que aprender a montá-la.

Já próximo a sua casa em Jaraguá havia uma maquinaria, onde Ivo foi para comprar a madeira para fazer o molde da guitarra. O instrumento saiu de forma artesanal e estava longe de ser perfeito, mas com ele, conseguiu formar sua primeira banda. Eram ele, dois irmãos e um amigo em comum de todos. O pai do jovem também ajudou a comprar alguns equipamentos.

Com o passar dos meses, Ivo abandonou a guitarra artesanal e comprou uma idêntica a Epiphone Casino igual a que John Lennon usou no rooftop do Apple Studios para gravar algumas músicas do álbum Let It Be, lançado em 1970 pelos Beatles.

Nessa época, Ivo já estava finalizando o curso, então dar partida na banda não foi uma decisão difícil. Ele fazia a guitarra solo com o novo instrumento e também cantava. Um dos irmãos tocava a guitarra base e outro bateria.

Já o amigo de todos sabia tocar acordeão e violão, e Ivo o ensinou a tocar contrabaixo e uma pianola da marca Hering que havia comprado.

Mesmo aprendendo a tocar na pianola, o rapaz assumiu o posto de baixista da banda e todos contrataram um homem para tocar acordeão. Com os membros a postos, a banda foi batizada de Os Caretas.

Mesmo aprendendo a tocar na pianola, o rapaz assumiu o posto de baixista da banda e contrataram um homem para tocar acordeão. Com os membros a postos, a banda foi batizada de Os Caretas.

Com o grupo formado, só restava um passo: seguir para os bailes. Eles chegaram a tocar em diversas festas em Jaraguá do Sul, Guaramirim e Corupá, mas, para enfrentar seis horas de show em um grande salão, era necessário um bom equipamento que a banda não tinha. Os cantores tinham que soltar a voz para serem ouvidos.

Baile na Sociedade Alvorada por volta dos anos 1970. Foto: Arquivo Bia Bartel

Baile na Sociedade Alvorada por volta dos anos 1970. Foto: Arquivo Bia Bartel

União entre as bandas

Enquanto tocavam nos salões, Ivo conheceu uma banda de Corupá, também no Norte catarinense, que contava com um musicista que tocava diversos instrumentos, o Neso. Por sentir que a banda possuía o que Os Caretas não tinham, todos resolveram se juntar e fazer uma banda só. Deste ponto em diante, todo fim de semana Ivo estava tocando guitarra e cantando.

“Naquela época, o cara que sabia tocar era visto como um artista já. A música pegou muito no geral e as pessoas gostavam de ouvir. Então não tinha muito preconceito”.

Apesar de diversas regiões do Brasil terem esse preconceito por músicos, ainda mais na década de 70, Ivo não chegou a se sentir excluído e julgado de forma alguma.A única bronca que levou foi dos pais e para baixar o volume dos instrumentos durante um ensaio no porão. Os integrantes estavam com muitas ideias de arranjos e repertório, além de cenário, chegando a montar uma iluminação toda feita à mão para economizar.

Com esse novo grupo, Ivo começou a escrever as músicas que ouvia no rádio em seus cadernos, que hoje se transformaram em uma relíquia. Ele ouvia a canção e logo escrevia o que entendia, ou seja, diversas letras estão escritas erradas.

Poderia haver um ‘I’m loonking too you, where did you go?’, dos Beatles, ou até mesmo ‘We skip the light fendengo’, do ‘Procol Harum. Ele chegava no ensaio com as letras e os acordes e começava a tocar. Na mesma pegada, os outros músicos seguiam com ele sem desafinar.

“A gente era tão treinado e tão junto. Parecia que o som e o clima dizem que tu tem que fazer aquilo. Era uma sincronia muito boa”.

Ivo Lombardi segurando uma folha com a letra impressa de Yellow River, escrita por ele. Foto: João Henrique Krieger

Antes de se formar, no final de 1970, ele começou a atuar nas empresas catarinenses, fazendo estágio na tecelagem Jaraguá Fabril e na antiga fábrica têxtil Casimiro Silveira, conhecida como Lumière.

Enquanto estava na tecelagem, um amigo dele contou que Brusque havia inaugurado o centro de treinamento do Senai e incentivou Ivo a buscar oportunidade lá.

Ele se empolgou com a ideia e foi conversar com o diretor da instituição, que ficou surpreso com a disposição de Ivo e o contratou. Na mudança para Brusque, o supergrupo se desfez e Os Fráguas continuaram sua trajetória.

Teares utilizados nos cursos do Senai. Foto: Senai/Divulgação

Vida em Brusque

Quando chegou em Brusque, Ivo se deparou com muito trabalho a fazer. Ele viu aparelhos de controle de qualidade e análise química, maquinário de tinturaria e teares do setor têxtil encaixotados nos depósitos da instituição. Seu objetivo era organizar uma equipe e deixar tudo funcionando perfeitamente.

Em pouco tempo, as fábricas de Brusque já estavam na mão de Ivo. Ele contratou trabalhadores das indústrias têxteis Renaux e Schlösser, sabendo que só ganharia mais qualidade com eles.

“O Senai precisava desse trabalho e ninguém conhecia. Como sempre fui esperto na brincadeira, eu consegui as pessoas e o que eu tinha na mão ficou importante”.

Além de trazer mão de obra qualificada, ele também traduziu livros técnicos em inglês e alemão. Enquanto Ivo começava sua jornada no Senai, havia outro ciclo em Brusque que estava se fechando, o dos Robinsons originais.

A banda de oito músicos que tocava durante horas nos bailes mais nobres da cidade havia acabado e Jaime Maffezzoli, irmão de Armando, estava buscando novos membros para a banda.

Os Robinsons na década de 1960. Foto: Arquivo Pessoal

Os Robinsons na década de 1960. Foto: Arquivo Pessoal

Sem compromisso com namorada, Ivo morava com um colega do Senai em um dormitório em cima do restaurante Glória, onde no subsolo havia o Bar da Toca, um dos estabelecimentos mais conhecidos de Brusque no século XX. O local ficava localizado na avenida Cônsul Carlos Renaux. Atualmente há uma loja da Magazine Luiza.

Apesar de curtir a vida noturna de Brusque, Ivo ainda não havia visto nenhum show da banda. Ele apenas chegou a ouvir sobre Os Robinsons, pois em Blumenau havia outro grupo chamado Erinho que tinha o mesmo estilo e composição: eram quatro pistões, dois saxes, guitarras, órgão e bateria.

No meio de todo o fervor setor que Ivo estava vivendo, ele se reencontrou com o amigo que conheceu no Rio de Janeiro. Entre conversas de trabalho, Armando disse que seu irmão estava em uma banda e precisando de novos músicos. Logo, Jaime ligou para Ivo e o convidou para um ensaio em uma sala na rua do Centenário.

O local ficava no terreno onde hoje funciona a Engesan Piscinas. O espaço foi demolido há alguns anos, restando apenas na memória dos músicos.

O Bar da Toca. Foto: Brusque Memória/Acervo
Engesan Piscinas no terreno onde havia a sala que a banda ensaiava. Foto: João Henrique Krieger

Ensaio com Os Robinsons

Ele chegou no lugar com sua guitarra e repertório cheio de Beatles, Creedence Clearwater Revival e Bee Gees, músicas que escrevia ouvindo do rádio. Naquele dia ele conheceu Lauro Maurici, Ingo Lauritzen, Lauro Fischer e Neno.

Ivo tocava um mi maior na guitarra e cantava “So long boy you can take my place, got my papers I’ve got my pay”, as primeiras palavras de Yellow River, de Christie, que os demais já entravam na música com seu instrumento e, em poucos minutos, ela já estava no repertório da banda. Esse conhecimento e rapidez na música fortalecia a relação de todos.

“Nós tínhamos o espírito de fazer tudo que era novo. Eu e o Lauro tínhamos isso bem firme, porque ele gostava das músicas e dividimos o vocal. O Ingo era o baterista e fazia a terceira voz. Aquilo era muito importante. O nosso vocal ficava diferente”

A partir desse momento, os ensaios ficaram frequentes e a banda conseguiu contrato para tocar em alguns clubes e bailes. Ao contrário do que viveu com Os Caretas, nos Robinsons Ivo tinha à sua disposição equipamentos de boa qualidade e que davam conta do recado em grandes salões.

Duas cidades que ficaram marcadas pela banda foram Blumenau e Itajaí. Houve temporadas em que todo sábado à tarde os quatro membros da banda entraram na kombi, colocavam todo o equipamento dentro, como o clássico órgão dos anos 70 Caribbean tocado por Lauro, amarravam alguma parte em cima, e partiam pela rodovia Antônio Heil.

“Ele [Lauro] sabia o mais simples, dominava fácil. Não era aquele instrumentista, mas era muito bom, porque ele tem ouvido e voz. Nessa parte ele domina muito. Ficamos tocando com isso e foi um sucesso. A banda era muito forte”, conta.

O fim?

Ivo estava feliz com os shows e vivia cada dia de uma vez. Em determinado momento conheceu sua mulher e casou com ela, então tinha uma companheira para as viagens e os shows. Em certos dias, até sua sogra viajava junto.

Até que, por volta de 1974, a Schlösser o procurou para atuar na fábrica. De início, ele ficou relutante, mas a oferta de um salário três vezes maior o fez mudar de ideia.

Nessa altura da história, o casal já estava esperando um bebê e Ivo também começou a lecionar de controle de qualidade, estatística e fiação e tecelagem no ensino profissionalizante do Colégio Cônsul Carlos Renaux.

Com as novas responsabilidades do novo emprego e com um filho a caminho, ele se viu em uma rotina que não teria espaço para ensaios, shows e viagens. Reuniu a banda e informou que não conseguia mais tocar. Ivo não quis dar a última palavra para terminar a banda, mas percebeu que Lauro também não estava com muita vontade em continuar. Além disso, Nene também chegou a sair, pois foi para a Polícia Militar, chegando ao posto de coronel e se aposentando no quartel.

Ivo inclusive chegou a procurar um jovem de 23 anos, de São Francisco do Sul, para solar na banda. O garoto chegou a dar uma repaginada nos arranjos, tanto nos instrumentos quanto nas vozes. Mas como ele tinha muitos problemas em casa, acabou não vingando na banda. Outro suporte que Ivo também buscou foi de Neso, um saxofonista.

Nos últimos shows a banda era formada por Ivo, Ingo, Lauro, Jaime e Neso. Lauro ficava apenas cantando as músicas que gostava, o que fez com que a banda o chamasse apenas para tocar em casamentos. Com o encerramento dos Robinsons, cada um seguiu caminhos diferentes.

Ivo Lombardi tocando violão em casa. Foto: João Henrique Krieger

Vida pós banda

Quando a banda acabou, Ivo não teve mais contato com outros grupos. Ele tocava violão apenas em casa com a família e alguns amigos. Nesse período, se dedicou exclusivamente ao trabalho, montando cursos e oficinas, e fez diversas viagens para fora do país. Ivo é pai de duas mulheres e um homem.

Outro hobby que começou a manter era o de comprar discos. A discoteca dele, como chama, chegou a ficar enorme e, por isso, propôs a ideia de bailes na Associação da Schlosser. Ele comprou todos os equipamentos de som e luz, e toda sexta-feira ou sábado todos os trabalhadores iam se divertir.

“Tocava muito Beatles e Bee Gees, era o que a gente gostava. Isso já era na década de 1980, então bandas como Black Sabbath e Iron Maiden, que nasceram uma década antes, já eram consagradas e o povo curtia. Tinha um espaço pequeno para as músicas italianas”, conta.

A vida de Ivo seguia em passos firmes até que, quase chegando na década de 1990, soube que o irmão de Armando, Jorge Maffezzoli, conhecido como Dodi, ensaiava na garagem de Armando. Junto com mais dois amigos, Dodi tocava principalmente Rolling Stone e bandas mais pesadas.

Ivo chegou a vê-los algumas vezes e aquele motor da música dentro dele começava a ferver novamente. Mais de duas décadas sem essa emoção, o instinto foi maior e tomou conta.

Ivo Lombardi cantando ao lado de Lauro Maurici. Foto: Vitor Souza

Ivo Lombardi cantando ao lado de Lauro Maurici. Foto: Vitor Souza

Um dia ele e Lauro foram lá e o amigo sugeriu: “cara, por que não começamos a tocar aqui de brincadeira?”. Nisso, Os Robinsons voltaram novamente e ensaiam até hoje.

“O Armando começou a tocar o sax com a gente e a coisa começou. Lembro que ele ensaiava até o esgotamento físico, porque tirava todos os solos exatamente iguais. Eu me senti realizado, todo aquele sentimento de antes voltou com toda a força”, diz.

Com todos juntos novamente, a banda chegou a tocar para público em algumas ocasiões como Jantar da Rodada da Pronegócios, eventos no Pavilhão da Fenarreco e também em algumas festas da região.

A banda chegou a tocar no Rock Bar com o grupo de country Os Bastardos. “A casa ficou lotada, foi uma maravilha”, conta Ivo. Além disso, o grupo também chegou a abrir o show da banda de Curitiba (PR) Beatles Forever.

Ivo afirma que ele segura a banda para ficar em Brusque, mas, caso não fosse por ele, o grupo já estaria na estrada há muito tempo.

Os Robinsons tocando no Rock Bar em 2014. Foto: Arquivo Pessoal

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É aquela responsabilidade que eu falo. Porque a gente chega no show, toma um porre, que nós gostamos, mas aí não dá mais pra tocar, porque fica ruim. A vergonha fica pra cima de mim, aí não dá. A gente viaja durante a música sem droga nem nada, simplesmente pelo êxtase do som”

“É aquela responsabilidade que eu falo. Porque a gente chega no show, toma um porre, que nós gostamos, mas aí não dá mais pra tocar, porque fica ruim. A vergonha fica pra cima de mim, aí não dá. A gente viaja durante a música sem droga nem nada, simplesmente pelo êxtase do som”

Pausa nos ensaios

Ivo estava realizado por voltar a tocar com os velhos amigos. Em 2024, a banda sofreu um baque violento: a morte da filha de Armando aos 43 anos. Após a perda, o anfitrião encerrou os ensaios da banda e se isolou dos demais.

“Nós tocamos com ela doente algumas vezes, porque a música também ajuda nesses momentos. Fomos no enterro dela e, dois meses depois, liguei para o Lauro e disse: ‘escuta aqui, cara, eu acho que o Armando já encolheu que chega. Isso não está mais fazendo bem pra ele. Se ele não quiser a banda, nós vamos achar outro lugar pra tocar. Mas vamos lá conversar com ele e tocar um pouco’. Avisei para o Armando que nós iríamos e fomos”, conta.

Quando recebeu a ligação de Ivo, Armando ficou receoso e não queria ver os amigos, mas a insistência do companheiro fez com que ele cedesse. Eles tocaram cerca de seis músicas e ficaram conversando com Armando, tentando tirá-lo do fundo do poço.

“Nós falamos pra ele naquele dia: não é uma questão de desrespeito com ela você voltar a viver, é uma valorização pra você. Nós estamos querendo te dar uma mão, porque é necessário você fazer isso”, diz.

Durante a conversa, ambos conseguiram convencer o amigo a voltar a ensaiar, mas de portão fechado, sem a presença de público. Ivo lembra que, logo no primeiro ensaio, já viu uma mudança positiva em Armando.

“Um dia chegou um amigo nosso lá, que de portão aberto ou fechado iria entrar. Na outra semana foi mais dois ou três, na outra mais quatro e por aí foi. Vimos que o Armando estava entusiasmado a continuar”, diz.