O fundador

O fundador

Armando Maffezzoli

Armando Maffezzoli

Para ler ao som de
Jailhouse Rock, de Elvis Presley, 
e O Milionário, de Os Incríveis

A capa de um disco do The Jordans despertou em Armando Maffezzoli a vontade de querer um saxofone, aos 16 anos. A eletrola da casa dele, aparelho que combina toca-discos, amplificador e alto-falante, chegou a cansar de tanto que o disco foi tocado. A partir deste momento, em 1966, nasceu a vontade de ter uma banda de rock’n’roll.

Capa do disco Suspense, do The Jordans, lançado em 1963. Foto: Reprodução

Suspense tem a canção Blue Star, que permaneceu por mais de seis meses no topo das paradas de sucesso.

Graças ao hit, o grupo passou a frequentar programas de auditório como Ritmos da Juventude, da rádio Nacional, Whiskey a Go Go, na TV Excelsior e os programas da TV Record, que inclui Astros do Disco, Show do Dia 7 e Jovem Guarda, no qual se apresentou até 1967 inclusive como banda de apoio de Roberto Carlos.

Com o nome inspirado nos Jordanaires, grupo vocal que acompanhou Elvis Presley no início da carreira, os músicos começaram sua trajetória em janeiro de 1958, no bairro da Mooca, em São Paulo. Os amigos Aladdin (Romeu Mantovani Sobrinho, guitarra), Sival (Olímpio Sinval Drago, também guitarrista) e o baterista Tiguês formaram inicialmente o trio Three Players. Pouco depois, Tiguês foi substituído por Foguinho (Valdemar Botelho Jr.).

Já em 1961, adotando definitivamente o nome The Jordans, o grupo lançou o compacto “A Vida Sorri Assim”, gravado com sua formação clássica: Aladdin, Sival, Foguinho, Tony (José de Andrade, baixo), o saxofonista Irupê e o guitarrista Mingo, que mais tarde deixaria a banda para formar o The Clevers, grupo que daria origem aos Incríveis.

O começo de um sonho

No mesmo ano, Armando conheceu o guitarrista José Lino Valle na avenida Cônsul Carlos Renaux, no Centro de Brusque.

Em um fim de tarde, enquanto Armando passeava pela avenida, ouviu as notas de um violão de nylon sendo tocado: era José se apresentando a uma jovem garota. Se ele conquistou a menina, não sabemos, mas chamou a atenção de Armando.

José era de Nova Trento, mas morava em Brusque enquanto estudava. Logo que a canção acabou, Armando se aproximou e, após uma breve conversa de apresentação, trocaram telefones.

Desfile de 7 de setembro de 1962 na avenida Cônsul Carlos Renaux. Foto: Brusque Memória/Acervo

Poucos dias depois, José recebe a ligação de Armando o convidando a ir até uma zona no bairro Steffen, pois o dono do estabelecimento tinha um saxofone e queria vendê-lo. Ambos entraram na Vespa de José e foram até o local.

O rádio poderia ter tocado a voz feroz de Roberto Carlos em Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, ou ainda os acordes de Chico Buarque em A Banda, ou até mesmo, em uma ilusão não muito distante, os violoncelos de Michelle, dos Beatles.

Já era noite quando chegaram e, para surpresa dos dois, as moças estavam jantando. Já naquela época o bairro tinha fama por brigas e tiroteios. No meio da bagunça, Armando comprou o instrumento, que anos depois chegou a ser requisitado novamente por seu dono original.

Entre as tardes e fins de semana, Armando conheceu os músicos Raul Hattick e Cláudio. Na época, Raul morava em um dos dormitórios do Bar da Toca e, para sua surpresa, também tocava saxofone.

Com esta turma e com os instrumentos em mãos, Armando formou Os Robinsons. Claudio tocava bateria, Armando e Raul tocavam saxofone, e José Lino cantava.

O sonho de Armando havia se realizado e ele começou a viver um pouco da vida de rock’n’roll em Brusque.

A banda comprou novos instrumentos na loja Straetz, no Centro. Alguns equipamentos de som foram emprestados pelo irmão do José Lino.

O primeiro ensaio aconteceu na sala localizada na rua do Centenário, ao lado da loja Engesan Piscinas.

O saxofone de Armando. Foto: João Henrique Krieger
Avenida Cônsul Carlos Renaux, mostrando a loja Straetz (à direita), Café Fuzon na esquina e ao fundo, a Matriz em construção, por volta de 1960. Foto: Érico Zendron/Acervo

Os bailes da época

De início e ainda no ostracismo brusquense, a banda chegou a fazer alguns shows em tardes dançantes, eventos que reuniam adolescentes e jovens, e marcaram a década. Uma referência para o grupo era o conjunto de Blumenau Erinho e seu Conjunto
Erinho e seu conjunto foi uma banda musical liderada por Erich Riedel, que se destacou na região nas décadas de 1950 e 1960. O conjunto se transformou em outras formações musicais ao longo do tempo, como o Quinteto Catarinense e, posteriormente, o nome Erinho foi usado pela Orquestra de Erinho.
, o qual Ivo Lombardi também conhecia.

Eles animavam os bailes com músicas americanas e italianas, canções que haviam dominado o mundo. Porém, a febre dos italianos foi abaixando com o passar do tempo, já que, com a chegada dos Beatles, todo o resto foi para segundo lugar.

A fama da música italiana era tanta que quando Os Robinsons se apresentaram em um festival de bandas na Sociedade Beneficente, no bairro Primeiro de Maio, José Lino cantou Granada, de Claudio Villa.

Outras duas músicas que fazem parte do repertório da banda desde essa época são O Milionário, de Os Incríveis, e Tema Para Jovens Enamorados, de The Jet Blacks. Para Armando, todo guitarrista deve ser saber tocar o riff de O Milionário.

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Quando eu toquei a primeira vez, me tremia pra caramba. Até ficou como se fosse um jeito de tocar, como um vibrato, mas eu estava tremendo”

“Quando eu toquei a primeira vez, me tremia pra caramba. Até ficou como se fosse um jeito de tocar, como um vibrato, mas eu estava tremendo”

Com a banda passando a ser conhecida pelo povo brusquense, ela começou a ser contratada para tocar em casamentos, principalmente nos clubes Paysandú e Bandeirante. Isso fez com que o grupo fosse considerado de alta classe.

Nessa altura, havia outras duas bandas que competiam com Os Robinsons: Os Alucinantes
A banda Os Alucinantes foi criada em 1968 por iniciativa de Odair José Pedrini. O grupo teve várias formações e mais de 20 músicos integraram a banda. Tocaram em diversos clubes da cidade canções de artistas como The Beatles, Creedence Clearwater Revival, Santana, Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis, The Fevers e Roberto Carlos.
, grupo de rock psicodélico, e Os Rebeldes, banda que também tocava em bailes e na qual Lauro era o baixista.

Sempre que Os Robinsons iam se apresentar em algum lugar, penduravam uma faixa pela cidade para atrair o público. Certa noite, o pessoal dos Alucinantes arrancou a faixa para tentar boicotar o show. Era uma rixa declarada.

Para revidar, Armando dizia aos demais músicos que Os Alucinantes tocavam alto porque não sabiam afinar os instrumentos. Décadas depois, os dois grupos já se encontraram e, hoje, olham para trás sem nenhum rancor.

Os Alucinantes no Clube Esportivo Paysandú. Foto: Arquivo Pessoal
Os Robinsons tocando no Clube Esportivo Paysandú e na Sociedade Esportiva Bandeirante. Foto: Arquivo Pessoal

Estudos no Rio de Janeiro

Após dois anos de apresentações e experiências, Armando teve a oportunidade de realizar estudos técnicos no Rio de Janeiro sobre a área têxtil. Ele teve que decidir entre a música e os estudos, e acabou fazendo as malas.

Mesmo sem seu fundador, a banda continuou, pois Jaime, irmão de Armando, entrou no grupo tocando baixo, instrumento que, até então, não tinha. Entre 1968 e 1972, a banda passou por diversas formações. Raul chegou a abandonar o posto de saxofonista e Lauro Fischer entrou na banda como cantor.

Quando Lauro entrou no grupo, trouxe um repertório imenso de músicas nacionais como Roberto Carlos, cantor em evidência que agradava tanto os mais conversadores, quanto os roqueiros, já que, a partir da metade da década, começou a gravar álbuns com bandas de rock.

Infância

Armando nasceu em 1950 e tem cinco irmãos e uma irmã, já falecida. O pai dele era dono de uma empresa têxtil na Guabiruba, na qual o jovem trabalhou logo que se formou no Rio de Janeiro. Como não tinha experiência na área, pediu carta branca ao pai para atuar no negócio. “Ele era prático e eu só tinha a teoria. Deu certo e nós crescemos”, conta.

Armando e o irmão Jaime Maffezzoli cuidavam das finanças da empresa. Também cuidava da manutenção dos equipamentos da empresa. Anos depois, Armando comprou a parte dos irmãos na empresa e se tornou o proprietário.

“Era uma fiação e eu cheguei a colocar máquinas de malha. Infelizmente, não consegui manter até hoje, porque tivemos problemas financeiros. Já que é uma empresa de família, muita gente acabou pegando dinheiro, o que causou problemas. A família fica bem e a fábrica fica mal”, relata.

Por causa disso, ele não conseguiu modernizar os equipamentos. Meio século depois, ele desativou a empresa, em um período que ainda estava de luto pela morte da filha Amanda, em 2024.

Armando Maffezzoli tocando saxofone. Foto: João Henrique Krieger

Durante a infância, sempre ouviu muita música. Um dos irmãos comprava diversos discos italianos e de música instrumental. Ele se gabava dizendo que comprava primeiro o disco e depois ele estourava no mercado. Com essas músicas, ele conheceu diversos instrumentos, mas seu interesse era apenas pelo saxofone.

“Hoje eu digo pro Lauro: como tu consegue tocar contrabaixo e cantar ao mesmo tempo?. E ele me responde: não sei como tu toca saxofone com um monte de coisas pra apertar ao mesmo tempo”, diz.

Por um tempo, Armando chegou a tocar guitarra nos ensaios da banda, mas, depois de ouvir conselhos dos amigos, largou o instrumento quando Nathan Krieger entrou na banda por volta de 2010.

Voltando ao tempo de criança, logo depois do almoço, os irmãos iam até o quintal da casa para ficar no balanço. Lá, eles ficavam escutando o rádio portátil. Certo dia, o irmão mais velho dele falou para ele prestar atenção na música que tocava, era She Loves You, dos Beatles.

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No começo eles só gritavam: yeah, yeah, yeah. E eram todos cabeludos. Não sei se usavam peruca ou não. No mesmo tempo, a Jovem Guarda estava aparecendo e eu acompanhei”

“No começo eles só gritavam: yeah, yeah, yeah. E eram todos cabeludos. Não sei se usavam peruca ou não. No mesmo tempo, a Jovem Guarda estava aparecendo e eu acompanhei”

Por que Os Robinsons?

Mesmo naquela época, discos internacionais chegavam em Brusque. Armando comprava os LPS em uma loja na avenida Cônsul Carlos Renaux. Ele chegou a comprar os discos do The Jordans e mostrar para o resto da banda. Armando conta que quem fundou o grupo foi um homem com sobrenome Jordans que comprou todos os instrumentos. A história deles é interligada com a dos Robinsons.

Quem sugeriu o nome do grupo foi Raul, inspirado no personagem Robinson Crusoé, do romance do escritor Daniel Defoe, que se inspirou na história verídica de um marinheiro escocês, que de 1704 a 1709 viveu abandonado em uma ilha. Agora fica a questão, o que isso tem a ver com a banda?

“Naquela época, nós éramos simples, então era difícil comprar instrumentos e como fomos nos virando sozinhos e um dos integrantes era meio erudito, ele transportou a nossa história para a do Crusoé”, conta.

Voltando à década de 1960, Armando tinha um violão em casa junto com algumas revistas chamadas de método, que vinham com o formato e a posição dos acordes. Foi desta forma que ele aprendeu algumas notas.

Além disso, sempre colocava um disco na vitrola e ficava ouvindo para tentar tirar o mesmo som. “Nunca tive aula de sax, provavelmente devo ter algum defeito ou vício, porque não tive professor”, conta.

Avenida Cônsul Carlos Renaux no fim dos anos 1950. Foto: Érico Zendron/Acervo

Armando estudou no Colégio Santo Antônio, atual São Luiz, e depois no Colégio Cônsul Carlos Renaux. No Cônsul ele estudava de noite e trabalhava como tecelã durante o dia. Depois das aulas ele tocava com a banda. Ele e os amigos encaixavam um dia da semana para se encontrar e tocar.

Pelo pai dele já atuar no setor têxtil, Armando prestou o vestibular em Florianópolis e passou, indo estudar no Rio de Janeiro.

Na cidade maravilhosa, viveu um dos momentos mais marcantes relacionados à música. Ele morava no bairro Sampaio e dividia a casa com outros estudantes. Próximo da residência, havia um local subterrâneo onde uma banda tocava.

Certa noite, ele passou por lá e ouviu um saxofone e um trombone. Teve vontade de entrar e pedir para tocar, mas apenas ficou parado naquele instante admirando o som.

Armando Maffezzoli tocando saxofone durante ensaio. Foto: Vitor Souza

Armando Maffezzoli tocando saxofone durante ensaio. Foto: Vitor Souza

Morte da filha

Hoje, Armando diz que perdeu o brilho de tocar. Essa perda foi motivada, em grande parte, pela morte de sua filha em julho de 2024. Ele diz que tem todos os instrumentos que sempre quis, possui a banda dos seus sonhos, mas, mesmo assim, ainda há um vazio que não é preenchido.

“Uma vez eu escutei de um senhor lá dos anos 60 que a música é assim: você sobe no palco e toca, as meninas te olham e você se sente muito bem. Depois do show, você guarda os instrumentos, as meninas vão embora e você fica sozinho. Não é bem assim, mas teoricamente é”, afirma.

Quando chega quinta-feira, Armando se sente cansado e, às vezes, diz para a esposa que vai cancelar o ensaio. Mas, de forma astuta, ela o apoia a ir tocar para aumentar o astral do músico.

Neste momento da entrevista, falamos sobre a morte de Amanda. Houve um dia em que eu estava do lado de fora da garagem, logo depois que a banda havia terminado o ensaio, e Armando pediu para que todos que estavam lá fizessem silêncio, pois a filha dele estava doente.

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Quando você está envolvido, aquilo não vem na sua cabeça. Mas no outro dia, a lembrança vem, te pega e dá um soco no estômago”

“Quando você está envolvido, aquilo não vem na sua cabeça. Mas no outro dia, a lembrança vem, te pega e dá um soco no estômago”

Com a quimioterapia, ela foi morar com os pais por conta dos cuidados médicos. Logo que ela morreu, Armando não queria mais ver gente e saber de música.

“Não toquei no saxofone por quase um ano. Até que eles [Ivo e Lauro] me chamaram para tocar de novo. Eu não quis, mas chamei eles aqui para conversar e me convenceram a tocar com a porta fechada. Mas mesmo assim, não me sentia bem”, conta.

Alguns ensaios depois, ele chegou a se reconectar com a música e realmente esquecer da perda, mas, quando a canção acabava, tudo voltava novamente. Toda vez que descia para a garagem, lembrava de Amanda sentada em uma das cadeiras assistindo à banda.