O beatle de Brusque

O beatle de Brusque

Lauro Maurici

Lauro Maurici

Para ler ao som de
Come Together, dos Beatles,
e I Started A Joke, do Bee Gees

Em 1972, trabalhava no balcão da Caixa Econômica Federal em Brusque e estudava ciências contábeis na Faculdade São Luiz. Fazia depósitos, saques, transferências e resolvia os problemas dos clientes. Em meio ao marasmo de um serviço manual e repetitivo, Lauro Maurici recebeu o convite de Jaime Maffezzolli para entrar para Os Robinsons. Jaime já havia assistido alguns shows do grupo Os Rebeldes, a primeira banda de Lauro, então sabia como o música tocava.

Porém, no convite havia uma condição. Lauro tocava baixo, mas, como Jaime era o baixista, ele propôs ao jovem tocar o órgão.

Lauro aceitou o convite e foi para o primeiro ensaio com o grupo. Já conhecia os Robinsons desde a década de 1960, quando eles tocavam em bailes com pistões, saxofones e demais instrumentos de sopros.

A impressão que Lauro tinha da banda era de que faziam parte da “alta sociedade”, por tocar em clubes como Paysandú, Beneficente e Santos Dumont. Além dele, Ivo Lombardi, Ingo Lauritzen, Nene e Nezo também foram convidados para tocar na banda.

Os Robinbsons foram fundados em 1966 por Armando Maffezzoli e chegou a ter oito integrantes. Porém, nesta altura, a banda contava com poucos músicos.

“Pelo que eu sei, os músicos anteriores foram casando e saindo da banda. Foi por isso que o Jaime nos convidou para entrar”, diz Lauro.

Ele foi até a sala do ensaio, na rua do Centenário, e encontrou um repertório totalmente diferente do que a banda executava anos antes. Se esperava ouvir A Volta do Boêmio, de Nelson Gonçalves, se surpreendeu com Come Together, dos Beatles.

Demorou pouco tempo para aprender os acordes do teclado, já que conhecia as notas e bastava decordar as posições no instrumento.

Em pouco tempo, já saiu em show com a banda. A primeira vez que tocou o instrumento com Os Robinsons foi em Blumenau.

“O volume era no pedal. Eu tremia pra caralho e fazia um solo alto pra caralho”, relembra.

Lauro e Ivo tocando nos Robinsons. Foto: João Henrique Krieger

Lauro Fischer, o principal cantor dos Robinsons na década de 1960, ainda estava no grupo, então parte do repertório ainda era de músicas brasileiras, com a maioria sendo clássicos do Roberto Carlos.

O rock internacional ficava por conta de Ivo Lombardi e Maurici que nunca chegaram a cantar uma música brasileira. A dupla sugeria em peso canções dos Bee Gees, Joey Coker, Rod Stewart e Beatles.

A disputa pelas músicas fez com que Lauro Fischer saísse da banda. “O Lauro viu que estava sobrando e decidiu sair da banda. A única vez que ouvi ele cantar em inglês foi Love Is All, do Malcolm Roberts. Ele [Fischer] tinha um vozeirão, então combinava bastante”, afirma Maurici.

Com a banda formada, só falta um passo a tomar: pegar a estrada e fazer shows.

Os Robinsons ensaiavam duas vezes por semana. Se havia um show marcado no sábado, Lauro ficava ansioso durante toda a sexta-feira para, à noite depois da aula, montar os equipamentos, tocar as músicas mais uma vez, desmontar tudo e colocar na Kombi que a banda contratava para viajar. Era uma correria sem igual.

Quando chegavam no salão, montavam o equipamento e começavam a afinar os instrumentos. Já neste momento, as pessoas que estavam lá começavam a se juntar para dançar e pediam que a banda se apressasse para tocar. Ele conta que o público chegava a assobiar porque estavam demorando.

Os Robinsons durante ensaio. Foto: Vitor Souza

Show até amanhecer

Com o repertório totalmente ensaiado, Os Robinsons começavam o show por volta da meia noite e, se o público estivesse animado, seguia até 6h.

“Naquela época, a gente não tocava três horas apenas. Se o baile estava ruim acabava umas 4h. Eu toquei uma vez no Bandeirante e, às 7h30, os caras chamaram a gente de filhos da puta porque paramos de tocar. E olha que éramos Os Robinsons”, relembra.

Depois do show, diversas pessoas iam conversar com a banda, fosse para falar da apresentação ou mesmo para jogar conversa fora.

“Naquela época, o palco era alto, quase da altura de uma pessoa. Mas enquanto a gente conversava, o Jaime ficava cobrando pra desmontar todo o equipamento. Ele era mais rígido. Se eu ficasse muito tempo só conversando estaria atrapalhando”, conta.

Com os equipamentos desmontados, era hora de colocá-los novamente na Kombi e partir rumo à Brusque novamente.Eles guardavam tudo na sala de ensaio e cada um seguia seu rumo para casa.

Lauro Maurici e seu baixo. Foto: Vitor Souza

Lauro Maurici com seu baixo. Foto: Vitor Souza

Casamento, demissão e fim da banda

Dois anos se passaram repletos de shows e Lauro decidiu pedir demissão da Caixa para se dedicar à fábrica da família. Esse era o sonho do pai dele. Ao mesmo tempo, os outros integrantes da banda também tinham seus próprios projetos e estavam ficando com um pé fora dos Robinsons.

“Segundo o Jaime, não valia mais a pena ter a banda. Nessa altura Brusque já tinha umas dez. Depois que o Armando se formou lá no Rio e voltou pra cá, os dois se dedicaram à fiação que eles montaram. O Ivo montou uma confecção muito grande e o Ingo trabalhava no Straetz. Cada um foi para o seu lado”, conta.

Em 1974, Lauro tinha 24 anos. Com 51 anos de distância deste acontecimento, sua memória não é tão clara em relação aos fatos. Ele lembra que, no mesmo período, o relacionamento que tinha havia terminado, o que culminou para aumentar sua tristeza.

“Como eu estava envolvida na fábrica, logo consegui melhorar. Mas foi uma época meio deprê. Saia, me divertia, mas sempre focado nisso”, diz.

Depois de quatro anos, ele conheceu sua ex-esposa e voltou a sorrir novamente. Mesmo sem banda, a música ainda fez parte da vida de Lauro por alguns momentos.

Ele participou de um projeto do grupo Os Alucinantes e também participou do Festival Universitário da Canção (FUC) em Blumenau, por volta de 1983, mesmo não sendo mais estudante.

VIII Festival Universitário da Canção realizado em 1984, em Blumenau. Foto: Fundação Cultural de Blumenau/Acervo

A organização do FUC chegou a gravar um LP com 12 faixas participantes e a canção composta por Lauro e o amigo Beto Dunker está entre elas. Ele guarda o disco em casa como memória de um tempo de realização.

Leia parte da letra da canção:

“Se alguém perguntar se está errado
Não fique triste, amigo
Não fique zangado
Levante sua cabeça
E escute opiniões
(…)
Não tenha medo
Grite bem alto, não fique preso
À sua timidez”

Celso (contrabaixo), Beto Dunker (violão e voz), Lauro Maurici (violão e voz) Cesar (flauta transversal) e Márcio Correia (piano) tocando no FUC. Foto: Arquivo Pessoal

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Foi um sucesso, o pessoal cantava o refrão bem alto. A música não está no meu nome, porque eu não era mais universitário. Ela foi gravada no nome de Celso, que tocou baixo nela”

“Foi um sucesso, o pessoal cantava o refrão bem alto. A música não está no meu nome, porque eu não era mais universitário. Ela foi gravada no nome de Celso, que tocou baixo nela”

Ele e Beto também chegaram a ficar em primeiro lugar em uma competição do programa de rádio Tempo Beatle, da radialista Ananda Apple
Ananda Lima Lairihoy é jornalista, radialista, repórter e apresentadora de televisão brasileira. Seu nome artístico, Apple, é uma homenagem à empresa fundada pelos Beatles. Seu primeiro trabalho profissional foi o programa Liverpool, na Rádio Continental, em Porto Alegre, seguido de Tempo Beatle, na Atlântida FM, do grupo RBS.
, na década de 1980.

Em um dos programas, Ananda chegou a entrevistar Lizzie Bravo, brasileira convidada por Paul McCartney a entrar no estúdio Abbey Road em Londres e fazer backing vocal na música Across the Universe.

“Eu tenho o troféu de primeiro lugar de música em homenagem aos Beatles que eu e o Beto compomos. Meu filho um dia me disse: sorte a minha que mal nasci e meu pai já tinha ganho o primeiro lugar de música em homenagem aos Beatles”, conta.

Além disso, ele também tinha ganhado uma coleção dos discos dos Beatles que, infelizmente, foi roubada anos depois.

Troféu de primeiro lugar na competição do programa Tempo Beatle. Foto: Arquivo Pessoal

Volta dos ensaios

Duas décadas se passaram de dedicação ao negócio da família e Lauro voltou a ter contato com os demais amigos da banda. Na memória dele, Ivo é que teria armado a volta dos ensaios e dito que o grupo estava se reunindo novamente. Lauro foi até a casa de Armando, na rua do Centenário, e viu o grupo tocando. Naquela época, os ensaios aconteciam na segunda-feira.

“Não tinha plateia e a casa era fechada. Era uma coisa só para nós. Sempre que alguém ouvia falar sobre perguntava se podia assistir, então o Armando começou a permitir que mais gente fosse”, diz.

A garagem de Armando era diferente do que é hoje. Não havia o conhecido barzinho, nem mesa de sinuca e ar-condicionado. As paredes também eram diferentes e contavam com um quadro dos Beatles.

Para Lauro, foi gratificante ver a mudança e perceber que as pessoas estavam interessadas em ver o ensaio. “Era uma participação muito boa do pessoal. Até hoje a gente gosta”.

“As esposas deles iam ver, os filhos e alguns amigos. Não sei se o Armando deixou o portão aberto algum dia porque queria, mas, depois disso, começou a chegar bastante gente”, conta.

Garagem onde a banda ensaia. Foto: João Henrique Krieger

Garagem onde a banda ensaia. Foto: João Henrique Krieger

Infância

Lauro nasceu em Brusque em 1950. O parto aconteceu dentro da casa dos pais, na rua Afonso Pena, no Centro, local onde fui para entrevistá-lo em uma segunda-feira à noite.

Saí do Uber em frente à casa e Lauro estava de pé na garagem com uma camisa azul e um coleta jeans preto. Nos cumprimentamos e entrei na casa. Sentamos lado a lado, eu no sofá e ele em uma cadeira, e começamos a conversar. Esta foi a primeira entrevista que fiz para este trabalho.

Conversamos mais de duas horas, até que pedi para Lauro pegar o baixo para algumas fotos. De início, não quis tocar o instrumento, mas, embalado pelas memórias durante a conversa, cantou algumas músicas que escreveu décadas atrás.

Voltando à história dele, Lauro foi o penúltimo dos sete filhos e o único homem. O pai dele era mestre tecelão e trabalhava na Fábrica de Fitas de Seda, fundada por Otto Schaefer
Otto Schaefer foi o primeiro presidente da Associação Comercial e Industrial de Brusque (Acibr). Ele foi uma figura importante na história econômica da cidade, além de ter sido presidente de outras entidades.A Acibr foi ativa até 1956, quando comerciantes se juntaram no Clube de Caça e Tiro Araújo Brusque para fundar a Associação Comercial de Brusque (ACB). As duas entidades coexistiram até 1964, quando a ACB decidiu pela fusão com a Acibr, que perdura até hoje como Associação Empresarial de Brusque.
. Já a mãe cuidava do lar.

“Eu não lembro muito da minha infância. O que lembro é que o pai era pobre e fazia os meus brinquedos muito bem. Meu pai era um artista. Trabalhava com madeira e chegou a fazer um automóvel enorme que abria a tampa do capô traseiro, embutida lá dentro e ele ficava conversível”, lembra.

Na frente de casa, ele e os demais rapazes da rua de barro brincaram o dia inteiro. Lauro conta que roubava a bicicleta do pai para andar, já que ela era o veículo dele no dia a dia.

“A gente fazia gangorra, botava um latão, botava uma tapa e andava de bicicleta. Caía pra caramba. Nós também brincávamos de taco e não tinha uma casa que não tivesse uma vidraça quebrada. Era muita encrenca”, diz.

Praça Salgado Filho, atual Barão de Schneeburg, nos anos 1950. Foto: Instituto Aldo Krieger/Acervo

Na década de 1950, os pais de Lauro diziam para ele que andar no Centro era perigoso, fazendo com que ele ficasse basicamente na rua em que nasceu.

Estudou até o quarto ano na Escola de Educação Básica (EEB) Feliciano Pires. Depois foi para a escola Honório Miranda e, por fim, no Colégio São Luiz.

Aos 8 anos, Lauro teve seu primeiro emprego em uma fábrica que fazia torrefação de café e moía milho na esquina da sua casa. Ele via os trabalhadores indo e vindo, e se interessou por aquilo. Naquela época, as leis trabalhistas ainda não estavam bem definidas.

Além dele, Ingo Lauritzen, baterista dos Robinsons durante anos, e outro amigo também foram contratados pela empresa. Depois de algum tempo ele saiu da fábrica, pois começou a ficar doente por conta da fumaça dos grãos.

“Em uma das vezes que fiquei doente comecei a tossir catarro e vinha preto, era o pó do café. Naquela época, não se usava máscara, nem nada”, conta.

Rua Rodrigues Alves, possivelmente nos anos 1950, com destaque para a Vila Quisisana e ao fundo o colégio Feliciano Pires. Foto Érico Zendron/Acervo

Música dentro de casa

Dentro de casa, o rádio, mesmo que sempre ligado, não era essencial, já que as irmãs de Lauro cantavam diversas músicas mexicanas e sertanejas. Foi por elas que ele conheceu artistas como Miguel Aceves Mejía
Miguel Aceves Mejía foi um cantor e ator mexicano, um dos grandes nomes da música ranchera e da era de ouro do cinema mexicano. Conhecido como “Rei do Falsete”, gravou mais de 1,6 mil canções e atuou em dezenas de filmes.
, Tonico e Tinoco
Tonico e Tinoco foram uma dupla sertaneja brasileira, considerada uma das mais importantes da história do gênero. Ativos principalmente entre as décadas de 1940 e 1990, ficaram conhecidos como “A Dupla Coração do Brasil”. Chegaram a gravar mais de mil músicas e participaram de diversos programas de rádio, televisão e filmes.
, e Teixeirinha
Teixeirinha foi um cantor, compositor e ator gaúcho, um dos artistas mais populares do sul do Brasil no século XX. Ficou conhecido como o “Gaúcho Coração do Rio Grande” e vendeu milhões de discos
. O pai dele também cantava em um coral, reforçando anda mais sua conexão com a música.

Por ver que o filho também era interessado, o homem foi até a Loja Straetz e comprou um violão para ele. Com o instrumento em mãos, aprendeu a tocar com os rapazes da rua e com revistas de cifras. Porém, eram poucas revistas que tinham o formato do acorde. Isso dificultou um pouco o aprendizado.

“Com a turma eu aprendi um Dó, Fá maior, Sol. Eu não tinha dinheiro pra comprar as revistinhas, então se algum amigo comprava, já ensinava para os outros. Tinha um rapaz que tocava acordeão. Ele que basicamente tirava os acordes e passava pra nós, porque tinha mais experiência”, conta.

Por volta de seus 14 anos, Lauro largou o violão e foi para o baixo. Com os amigos da rua, o jovem formou sua primeira banda: Os Rebeldes.O ano exato em que a banda foi formada não é claro na memória de Lauro, mas ela durou até 1970. Fanático por Beatles, o repertório da banda era formado basciamento por canções do grupo britânico.

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Eu cantava Come Together e fazia o baixo errado ainda, porque o segundo acorde, que é maior, eu fazia menor. Mas nunca ninguém disse nada e olha que a gente tocou em alguns lugares”

“Eu cantava Come Together e fazia o baixo errado ainda, porque o segundo acorde, que é maior, eu fazia menor. Mas nunca ninguém disse nada e olha que a gente tocou em alguns lugares”

Os rebeldes

A banda tocou em diversos clubes como Santos Dumont, Paysandú, Renaux, 1020 e SOS. Uma vez chegaram a tocar com o Ciro e Teatro Inhana, em Botuverá.

O circo havia se apresentado em Brusque, mas, por alguma briga interna, se separou. Apenas o palhaço Bolinha restou. Com um Ford Mercury e um filho para sustentar, ele chamou Os Rebeldes para tocar depois do circo na cidade vizinha.

“Nas primeiras vezes que eu toquei fiquei muito nervoso. Até hoje quando toco em algum bar fico apreensivo. Só que, como a gente era guri, tinha menos responsabilidade. Naquela época só queria agradar às meninas. Hoje, não. Tem bem mais responsabilidade”, diz.

Essa responsabilidade faz com que Lauro não cante tantas músicas quando é contratado para tocar em algum lugar.Ele tem a dupla Soul Riders e, em um repertório de 20 músicas, canta cerca de cinco.

Já nos ensaios dos Robinsons canta quase todas as músicas, pois não tem o compromisso em entregar nada de qualidade, uma vez que ninguém pagou para vê-lo.

Foto dos Rebeldes enquadrada na parede da garagem onde Os Robinsons ensaiam. Lauro Maurici está no centro da imagem. Foto: João Henrique Krieger

Um dos momentos marcantes da adolescência de Lauro foi quando ele ouviu Beatles pela primeira vez. Por ser de família católica, ele acompanhava os pais nas missas.

Porém, já com o espírito do rock’n’roll, escutava pouca coisa da homilia e sempre dava um jeito de escapar da Igreja Matriz e se reunir com os amigos perto do Cine Teatro Real
A primeira experiência da Família Gracher com o Cine Esperança foi seguida por várias outras ações empreendedoras, sempre com a expectativa de tornar o cinema uma atração cada vez melhor na cidade. Foi assim que, em 1932, o Cine Esperança se tornou Cine Guarany – construído junto ao primeiro hotel da família e o primeiro cinema falado, graças a aparelhos como Vitaphone e Moviephone. O empreendimento foi aumentando cada dia mais. Em 1949, Arno Carlos e o filho Carlos inauguraram o Cine Real, com mais de 500 lugares – que passou por um incêndio em 1952 – e mais tarde se tornou no Cine Teatro Real, que além de cinema sediava também peças teatrais, trazidas até mesmo de outros estados e manteve-se na ativa até 1994. Depois de tantos anos dedicados à sétima arte, a família buscou aperfeiçoar o trabalho e a
interrupção dos serviços em 1994 estava ligada a uma reforma no espaço, reinaugurado em 1999, com o nome de Cine Gracher, e ampliado em 2005.
, atual Shopping Gracher.

Logo que chegou, foi ao pipoqueiro comprar um pacote quando ouviu sair das caixas de som “she loves you, yeah yeah yeah”. Impactado com aquilo, perguntou ao homem o que era aquela música e obteve a simples resposta: “não sei. Isso é lá do estrangeiro”.

Na hora aquilo entrou em mim. Cheguei a perguntar para várias pessoas qual era aquela música, mas ninguém conhecia. Até que perguntei para amigos que estudam em Curitiba (PR), onde sempre chegavam mais cedo as novidades, e eles me disseram que eram Os Beatles”, diz.

Por não ter acesso aos discos tão facilmente, Lauro buscava estações no rádio para ouvir a banda. Ele conta que sintonizava na Rádio Mundial, do Rio de Janeiro, para ouvir o programa do DJ Big Boy
A Rádio Mundial contava com o DJ Big Boy que, com um excelente bom gosto musical, trazia as principais novidades do rock para os jovens cariocas nos anos 60. Na emissora, mantinha dois programas diários, o Big Boy Show e o Ritmos de Boite, e um semanal especializado em Beatles. Em 7 de março de 1977, Big Boy faleceu em um quarto de hotel em São Paulo com 33 anos
, que tocava bandas como Cream, Led Zeppelin, Rolling Stones e, principalmente, Beatles.

Antigo Cine Gracher. Data desconhecida. Foto: Jornal O Município/Acervo

Os Rebeldes tiveram seu fim por volta de 1970. Lauro lembra que os companheiros do grupo já estavam se casando e que era difícil conciliar a nova vida com a música, mesmo afirmando que “banda é igual casamento”.

“Até nos Robinsons eu já guardei meu baixo duas vezes e disse que nunca mais iria tocar por causa do Armando. Só que lá não é música, é amizade. Às vezes tu se incomoda, até porque nós somos tudo velho. Eu sou muito paciente, mas o Armando não é. Depois de uma briga ele veio até mim com um copo de vinho, pediu desculpas e eu voltei pra tocar”, diz.