Para ler ao som de
Never Tear Us Apart, de INXS, e
Something, dos Beatles
Era 2017 e estava em Florianópolis quando recebeu uma ligação de Ivo Lombardi. Atendeu e ouviu as tristes palavras serem ditas pela boca do amigo: gaúcho, o Ingo morreu. Na hora em que ouviu essa frase pelo celular, pensou somente na última visita que fez ao amigo, cerca de duas semanas antes.
Cláudio Muller tinha ido até a casa de Ingo Lauritzen, o baterista dos Robinsons na época, na rua Bulcão Viana, no bairro Azambuja, em Brusque. O gaúcho foi recepcionado pelo filho de Ingo quando perguntou se poderia ir ao quarto do amigo. O garoto logo respondeu: “claro que sim. O pai sempre disse que você vir quando quiser”.
Tomado pela emoção, Cláudio ainda ouviu o jovem dizer que, naquela manhã, Ingo havia se indagado com a família quando o amigo iria visitá-lo novamente. Gaúcho foi até o quarto e viu o amigo magro e acamado. O câncer já havia feito todo seu trabalho. “Ele já estava meio vegetando e era magro, magro, magro”, conta.
Por motivos que nem mesmo Cláudio sabe explicar, ele não foi nem ao velório e nem ao enterro de Ingo. Desde então, coloca o nome do amigo em todas as orações que faz.
Com a morte de Ingo, Cláudio foi oficialmente convidado para ser o baterista dos Robinsons. E lá se vão quase dez anos como membro oficial. Porém, faz parte da banda há mais de duas décadas.
Cláudio é natural de Agudo (RS), município a 60 quilômetros de Santa Maria. Em 2001, se mudou para Brusque após a esposa vir para a cidade por motivos de trabalho. Especialista em pintura, conseguiu emprego na Escola de Educação Básica (EEB) Feliciano Pires, no Centro. Lá, conheceu dois sobrinhos de Ingo e foi apresentado à banda por eles.
“Um dia eles me disseram: “seu tchê, o meu tio é baterista e toca Beatles em uma banda, vai lá ver um dia”. Naquela época, o ensaio acontecia na segunda-feira. Quando cheguei, o Ingo me reconheceu como sendo o gaúcho que os sobrinhos dele falaram. Assim, quando o Ingo saia eu pegava a bateria e tocava”, conta.
Ao contrário dos dias de hoje, que os ensaios são as quintas-feiras e começam por volta das 20h30, naquela época eles começavam cerca de meia hora antes e iam até 3h. Mas sempre que o relógio batia 22h, Ingo passava o posto de baterista para Cláudio e ia para casa ficar com a família.
Ingo olhava para o gaúcho e dizia: “capricha, hein”. Quase dez anos após a morte de Ingo, Cláudio ainda sente a presença do amigo. Em certos momentos enquanto toca, sente um toque em seu ombro.
Ele olha para o lado e vê que Victor Michelato, guitarrista dos Robinsons, está à sua frente e, atrás, não há ninguém. Logo que olha de novo para frente, escuta a voz do amigo baterista dizendo a frase nas trocas das baquetas.
Eu ouço a voz dele e isso não me incomoda. Penso em todas as vezes que ele me deu a chance de tocar uma música, então tenho que fazer bonito. Tenho que caprichar, que nem ele dizia”
“Eu ouço a voz dele e isso não me incomoda. Penso em todas as vezes que ele me deu a chance de tocar uma música, então tenho que fazer bonito. Tenho que caprichar, que nem ele dizia”
Cláudio nasceu em dezembro de 1951. Além dele, seus pais tiveram outros três filhos: dois meninos e uma menina. Quando tinha 10 anos, entrou para o mundo da música ao participar de uma fanfarra da escola Dom Pedro II. Ele sempre observava os músicos tocando e sentia uma forte vontade de estar no palco com eles.
Certo dia, o diretor da escola perguntou, em alemão, se ele gostaria de aprender bateria. Surpreso e animado, respondeu que tocava tambor, o que já era um requisito suficiente para participar.
“Ele me deu umas baquetas e comecei a tocar com os guris. Depois de um tempo, tinha uma orquestra na cidade e também fiquei de olho neles. Fui na marcenaria que era do meu tio e ele fez pra mim um par de baquetas bom. A partir daí, comecei a tocar com frequência”, conta.
Na primeira vez que tocou com a banda, sentou-se em uma cadeira de palha, típica da época. Os demais músicos lhe ensinaram o ritmo de valsa, e Cláudio passou a aprender novos andamentos de bateria.
Já na adolescência, entrou em uma banda de rock, mas, como havia aprendido diversos ritmos na infância, não se limitou ao gênero. Chegou a tocar em boates músicas de carnaval e sambas.
Um homem que Cláudio conheceu nos anos 1970, conhecido como Negão Pelé, vendeu-lhe uma bateria Pinguim. Ele pediu dinheiro ao avô e comprou o instrumento.
Cláudio chegou a servir o Exército e participou de uma fanfarra dentro do quartel. Fez curso de cabo e sargento, mas não seguiu carreira. Depois que deixou o serviço militar, passou a viajar por cidades gaúchas tocando em bandas da época.
Ele batia ponto quase todo fim de semana na casa noturna Lanterna Verde, em Santa Maria (RS). Quando não havia agenda em outras cidades, se apresentava na sexta-feira, sábado e domingo no estabelecimento. “Tinha muita mulherada que, depois que fazia os pontos delas às 11h, ia para o bailão e ficava lá”, lembra.
Durante a vida adulta, Cláudio se especializou em pintura. Atualmente, é agende de obras da Secretaria de Obras e Serviços Urbanos de Obras, e produz as placas com direções dos bairros da cidade.
Seu “escritório” fica na Arena Brusque, onde realizamos a entrevista. Trata-se de um andar inteiro só para ele, com três ou quatro mesas de trabalho, equipamentos de corte e letreiros.
Em 2026, Cláudio deverá se aposentar do serviço público e planeja voltar para o Rio Grande do Sul, tudo depende de conseguir um novo emprego em Brusque, algo que ainda deseja.
Voltando algumas décadas, em 1999 ele gravou um CD com o grupo Florindo Ivan e seu Conjunto. No dia da gravação, viveu um dos momentos mais marcantes de sua trajetória.
Ele estava tocando quando recebeu a ligação da esposa avisando que sua filha estava prestes a nascer. Cláudio deixou o estúdio imediatamente e foi direto para o hospital acompanhar o parto.
“Gravamos umas 14 músicas em duas noites. Eu saí do estúdio no dia do nascimento e voltei no dia seguinte para continuar”, conta.
Cláudio estima que tenha tocado em mais de 20 bandas ao longo de toda sua vida. De cada uma delas, guarda histórias que levará até o túmulo.
Banda Florindo Ivan e seu Conjunto. Foto: Arquivo Pessoal
Com o expediente começando às 5h e às vezes terminando ao fim da tarde, Cláudio ensaia com Os Robinsons para esquecer do trabalho e relaxar. “Eu quero tocar pra me distrair. Passo o dia com a cabeça trabalhando pesado, fazendo minhas placas gigantes. Quando chego lá é um alívio para mim”, diz.
“No dia seguinte da banda é puxado, porque eu saio de lá por volta das 2h, 3h e tenho que trabalhar logo depois. Só quero chegar e deitar no sofá até me recompor. Mas mesmo assim, sempre vale a pena ir e tocar. Toco por prazer e tomo a minha cachacinha”.
Ao lado da bateria, há uma mesinha sempre com um ou dois copos, um deles de cachaça e outro com cuba de uísque e coca cola. Ambos os copos Cláudio divide com Victor, que toca ao lado dele.
Houve um dia em que eu estava assistindo ao ensaio e Victor passou para Ivo, do outro lado da garagem, um copo com uísque. Ivo tomou um gole, passou para Lauro e colocou em cima de um amplificador.
Três ou quatro músicas depois, enquanto a banda decidia qual seria a próxima canção, Victor sussurrou para Ivo de forma nada silenciosa: a bebidinha ali. Na hora todos riram e o jovem ficou envergonhado. Quando o copo chegou novamente ao baterista, Cláudio agradeceu pelo pedido do amigo.
“Eu gosto muito do Victor. Nós sempre conversamos bastante sobre todas as coisas. Às vezes o pai dele também está lá e é uma festa só.”, diz.
Victor Michelato e Cláudio Muller. Foto: Vitor Souza
Quando a filha de Armando morreu, em 2024, o que ocasionou uma pausa nos ensaios de quase um ano, Cláudio ficou perto outra vez de uma perda dessa magnitude.
Na década de 1980, ele perdeu sua filha de seis meses por um erro médico. Ele estava trabalhando quando recebeu um telefonema dizendo que a menina foi internada às pressas.
Largou o serviço e foi direto para lá. Ela iria passar por uma cirurgia urgente. Alguns dias depois, outro telefone chegou. Desta vez, foi para informar que a filha havia morrido.
Quase quatro décadas depois, Cláudio recebeu o mesmo telefonema de Ivo. Ele também estava trabalhando, quando o amigo lhe disse: “gaúcho, deu problema lá com o Armando. A Amanda morreu”.
“Só quem já perdeu um ente querido sabe o que é passar por essa dor. Eu fui no velório dela com Ivo e vi Armando em frente ao caixão. Ele deu uma batidinha de leve na madeira e não disse uma palavra”, conta.
Após esse episódio, os músicos foram se reunindo e ensaiando com o portão fechado. Pouco a pouco, foram abrindo as portas e seguem em atividade.