uma das primeiras bandas de rock de Brusque
Pegamos a rua do Centenário e, quando chegamos no cruzamento com a avenida Otto Renaux, em frente à RenauxView, já pude ouvir a onda sonora que saía daquela garagem.
Era bateria, guitarra, baixo e, o mais potente de todos, um saxofone… O resto é história.
Era fevereiro ou março de 2023 e fazia um pouco mais de um mês que eu estava em Brusque. Em dezembro, ainda em Porto Belo, havia mandado currículo para o jornal O Município enquanto estava no segundo período do curso de Jornalismo da Univali. Fiz a entrevista naquele mês e, no final de janeiro, fui chamado para estagiar no jornal.
Em Porto Belo, não havia muitas coisas além da areia da praia, que eu quase nunca pisava, e de muitas imobiliárias. Via o pôr do sol diariamente pela janela de uma van no percurso Porto Belo-Itajaí.
Naquela época, ficava o dia inteiro lendo ou com meu violão de nylon, que era da minha mãe e eu havia ganhado do meu tio Dantes em alguma ocasião que não lembro qual. Fazia pouco mais de um ano que meu avô Arthur tinha morrido, uma pessoa que acompanhou todos os meus passos e pela qual tenho uma enorme admiração.
Quase toda noite, como um ritual, a gente ficava na mesa da sala, quando minha mãe e avó já tinham ido para a cama, e eu tocava para ele todos os rocks que gostava.
Ia desde de Minha Menina, de Os Mutantes, passava pela A Montanha, dos Engenheiros do Hawaii, e, de vez em nunca, terminava em No.1 Party Anthem, do Arctic Monkeys.
Teve uma vez que cheguei a tocar My Way, do Frank Sinatra, mas ficou péssimo, porque meu inglês é horrível.
Por causa da partida dele, eu passei a ouvir muita MPB, principalmente Chico Buarque e Caetano Veloso. Acho a harmonia de Ela e Sua Janela muito rock’n’roll, apesar do ritmo ser bossa nova.
Eu também tocava Remelexo, do Caetano, muito bem. Foi com essa música que consegui sincronizar o dedo um antes dos outros três para fazer a batida.
Nessa altura eu já havia mudado o meu gosto musical. Claro que não por completo, a gente sempre mantém as raízes próximas da árvore, mas eu ouvia, entre Joy Division e Legião Urbana, principalmente duas músicas: A Nossa Amizade, do Ira!, que sempre achei uma canção de amor sensacional, e Leif Erikson, do Interpol.
O riff de guitarra que toca no começo de Leif Erikson me deixa em êxtase total e a voz firme do Paul Banks parece uma longa estrada a ser percorrida de madrugada com faróis altos.
Nesse ponto, eu estava no terceiro período da faculdade e ainda tinha aulas todos os dias. Acho que nas minhas primeiras três semanas em Brusque não havia ido a nenhum dos lugares que eu via nas redes sociais.
Até que, em uma quinta-feira, eu estava dentro do ônibus na rotatória do Cartolas Pub, na rodovia Antônio Heil, quando recebi a mensagem no WhatsApp de Otávio, um amigo que conheci no jornal. Ele disse: “É uma banda que toca perto do Bar do Flamengo. Queres ir?”.
Na hora fiquei empolgado e tive vontade de descer do ônibus, já emendar um esquenta com ele e Vitor, outro amigo que conheci na faculdade e havia entrado no jornal um ano antes de mim, e ir direto para lá. Mas tinha aula e eu não podia ganhar uma falta, uma mentalidade que foi se perdendo ao longo dos semestres.
Todo o caminho fui procurando onde ficava o tal Bar do Flamengo e que banda era essa.
Eu imaginei que fosse em um bar, um deck ou qualquer espaço com um palco. Mas, quando cheguei na Univali, Otávio havia me dito que a banda tocava na garagem da casa de um dos integrantes.
Fiquei mais tranquilo porque, apesar de naquela época estar expandido meus relacionamentos e me comunicando mais, a famosa fobia social ainda existia.
Entramos e, logo na entrada, estava Otávio com uma sacola verde de plástico com quatro ou cinco ipas. Eu fui entrando na garagem subterrânea e vi as pessoas bebendo e olhando para a banda.
Coloquei as cervejas na geladeira e fiquei perplexo. Um lugar pequeno, aconchegante e com uma energia tão íntima. A luz era baixa, havia uns bancos de madeira do lado de fora, e duas ou três mesas de cerâmica e cadeiras forradas do lado de dentro.
Chegamos a falar com Beatriz, que havia saído do jornal naquela semana e protagonizou, naquela noite, um dos momentos mais marcantes da minha chegada em Brusque, mas que não será dito aqui. Não ficamos muito com ela, porque, por ser habituada ao local, ia de grupo em grupo conversando com as pessoas.
Mesmo do lado de fora da garagem, no intervalo de um cigarro e outro, eu ouvia aquela banda tão conectada entre si e fazendo meu cérebro dançar ao som de Jailhouse Rock, de Elvis Presley, canção que, mesmo com dois cantores na banda, Ivo e Lauro, toda a melodia é feita pelo sax de Armando. Beatriz foi embora e nós ficamos ainda mais de uma hora ouvindo.
Me recordo que, ainda no ônibus indo para Itajaí, perguntei para o meu tio se podia chegar mais tarde e ele apenas disse: “só não faz cena aqui em casa”. Acho que era 1h quando voltei a pé para a casa dele.
Eu cheguei a conhecer a maioria dos lugares que as pessoas que eu seguia no Instagram postaram, mas nenhum deles se compara aos Robinsons.
O não compromisso da banda em ensaiar as músicas, às vezes ficar alguns minutos para tocar a introdução, junto com o interesse das pessoas em ir e levar suas bebidas, faz com que as noites das quintas-feiras sejam um evento muito esperado.
É quase uma religião. Nesse tempo, sempre que chegava quinta de manhã, Otávio, Vitor e eu já entrávamos no perfil do Instagram da banda para ver se eles tinham anunciado que iriam tocar.
Depois daquele dia, eu fui muitas e muitas vezes à casa número 71 da rua do Centenário, para comemorar alguma conquista ou tirar um pouco o estresse do dia a dia.
Independente do humor que eu estava ou do que havia acontecido no dia, aquelas três horas que eu ficava lá ouvindo aquelas músicas valiam mais do que qualquer outro grande show.